A Europa inova na forma-partido

Os partidos políticos nasceram no século XVIII. A literatura especializada os denomina de “partidos de notáveis”, dado que se pareciam mais com clubes de apoio à candidatura de um notável que os representasse que uma organização permanente. Após o escolhido tomar posse, o “clube” ou articulação de apoiadores se desfazia. No século seguinte, surgiram os partidos modernos, inicialmente configurados como operários, que adotaram programas globais, militância de base, direção administrativa e política e programa permanente. A provisoriedade tinha se dissipado. Em seu lugar, surgiram organizações totais, com vocação para conquistar o Estado. Totais porque todos seus espaços internos eram ocupados e conectados: de suas lideranças carismáticas à sua direção, da direção à burocracia interna, da burocracia à militância, todos articulados a partir de um comando único, formulado democraticamente ou não. Esta é a estrutura que ainda hoje define um partido político.

Ocorre que já no final do século XX, a dinâmica e configuração social parecia se alterar aceleradamente. Fragmentação passou a ser a palavra que resumia a realidade. As formas de inserção no mercado se tornaram mais complexas, do trabalho part-time à malha de pequenos negócios, do velho assalariamento ao pagamento por produção ou inovação (onde o salário móvel se tornou mais significativo que o salário fixo), das associações produtivas (cooperativismo, consórcio produtivo ou associação de um pequeno produtor à um conglomerado industrial) às empresas virtuais.

A formação de identidade de classe ficou mais fluida, embora persistisse. As cidades se fragmentaram pela “gentrificação”, pela ocupação desordenada, pelos processos migratórios que redefiniram o lugar de culturas específicas, pela malha viária, pela recomposição social e familiar.

Os jovens são o exemplo acabado da fragmentação social e da pulverização dos interesses e demandas grupais. Dos anos 1980 aos dias de hoje, a família nuclear, composta por pai, mãe e filhos, entrou em decadência e no Brasil diminuíram sua representação no período de 75% para 50%. A família que avançou no campo aberto pela família nuclear foi a monoparental, onde somente um dos pais reside com os filhos (no caso brasileiro, ao redor de 20% das famílias, sendo que em 90% delas, são as mães que residem com os filhos). Em grande parte dos casos, a mãe da família monoparental trabalha numa extensa jornada e não tem apoio familiar ou de contratados que a ajude na educação e guarda dos filhos. A resultante foi a multiplicação de “pares de idade”, a expressão inglesa para denominar as tribos juvenis que se protegem e se formam. Pesquisas recentes indicam que o vestuário, a linguagem e os valores são formados nestes agrupamentos ou comunidades fechadas de autoajuda. Nos últimos anos, os agrupamentos juvenis se plasmaram nas redes sociais. Encontraram o ambiente adequado.

Vejamos de perto este novo tipo de organização social, referência para a cultura e a relação juvenis.

A base deste relacionamento segue a lógica comunitária da identidade afetiva e da adesão. Um amigo se relaciona com dois outros que não se comunicam entre si. Forma-se, ao contrário dos partidos políticos, uma lacuna neste tripé. A relação se dá por afeto ou interesse comum, mas não se estabelece uma linha social comum. Ao contrário, forma-se uma relação profundamente personalizada, nominal, onde se estabelece uma relação de confiança alimentada pelo contato cotidiano ou frequente, não numa confiança abstrata e racional. Troca de experiências e identidade de avaliação e visão de mundo formam a base deste relacionamento.

Numa escala maior, o que se desenha em termos de uma nova sociabilidade é a existência de vários núcleos semi-independentes em que parte se conecta a outro núcleo e parte não. São rizomas já percebidos por Gilles Deleuze e Félix Guattari na década de 1980, formando múltiplas ramificações e “bulbos” que aparecem em qualquer parte desta longa extensão de relacionamentos entre comunidades.

Mais recentemente, estudos sobre a dinâmica desta nova forma de sociabilidade (como os produzidos pelo catalão Javier Toret ou o capixaba Fábio Malini) indicam uma lógica de comunicação que se fia por “autoridades” e principalmente “hubs”. Autoridades é a denominação dos expoentes mais conhecidos publicamente, personalidades e experts que chamam a atenção de várias comunidades. Contudo, ao contrário do que ocorria no século XX (o século das multidões), não são eles que definem a ação e valores da longa cadeia de comunidades. São os “hubs”, quase anônimos, que num trabalho incansável de disseminação e provocação do diálogo no interior das redes, multiplicam informações, geram comoção e articulam reações em cadeia. Os “hubs”, ao contrário das autoridades, não criticam nem defendem claramente posições e impressões. Apenas disseminam fotos, postagens de terceiros, informações. Muitas vezes, perguntam sobre a avaliação ou impressão que os membros de várias comunidades têm sobre dada informação ou opinião e, assim, motivam uma cadeia de diálogos entre membros de diversas comunidades, formando os extensos rizomas.

Os partidos políticos, com um pé no século passado, não conseguem se inserir nesta lógica fluida, provisória, dinâmica, em formação e recomposição permanente. Verticalizados, os dirigentes e comunicólogos partidários atacam os adversários e defendem suas posições. Não sabem lidar com lacunas organizativas, com interação e formação processual de opinião. Mesmo porque, a opinião foi formada em outra localidade, a comunidade partidária, mais fechada que as juvenis.

A questão que fica é: partidos totais e estruturas verticais conseguirão acompanhar sociedades tão dinâmicas, fluidas e provisórias?

Para promover a reflexão sobre as respostas possíveis, indico na tabela a seguir as diferenças mais agudas das duas formas de organização, as do século passado e as juvenis, deste século:
Os protestos urbanos do século XXI, das Assembleias Populares argentinas de 2001 ao Occupy, passando pela Primavera Árabe, a Revolução das Panelas (da Islândia, 2008), o M15 espanhol (2011 e 2012) e nossos junho de 2013 e março de 2015, todos assumiram a lógica da organização social em rede descrita na segunda coluna da tabela a seguir. Uma organização em cadeia, altamente emocional, provisória, dinâmica.

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ORGANIZAÇÃO SOCIAL BUROCRÁTICA ORGANIZAÇÃO SOCIAL EM REDE
Predomínio da ação coletiva unificada em “ordem unida”, baseada na disciplina, autocontrole, senso de grupo e autoestima. Predomínio da adesão pessoal e preservação da individualidade dos componentes.
Ativistas seguem orientação da organização. Ativistas aderem à organização ou mobilização por convicção pessoal e por identidade afetiva momentânea.
Ações coletivas objetivam atingir uma meta ou efetivar um programa definido em eventos deliberativos específicos ou pela direção da organização. Ações coletivas se vinculam a um sentimento comum de indignação, injustiça e revolta.
Coletivo é representado por dirigentes e porta-vozes previamente conhecidos. Coletivo pode ser representado por porta-vozes rotativos, escolhidos coletivamente num momento específico, com curto tempo de mandato.

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O que parecia contradizer a lógica partidária acabou dando lugar a uma nova forma-partido. A expressão mais acabada surgiu na Europa. Em alguns casos, como na Grécia e Portugal, de maneira ainda transitória. Algo com maior ruptura conceitual e organizacional foi esboçado na Itália. Porém a mais surpreendente novidade veio da Espanha, com o Podemos.

Quando a rede social se encontra com a ironia e o cinismo de comunicólogos

Javier Toret, em sua análise sobre os gigantescos protestos espanhóis ocorridos em 2011 e 2012 e sua caminhada para a crítica ao campo institucional da ação política nos anos seguintes (até desaguar no surgimento do Podemos, em 2014), sugere que a passagem da rua para a política formal se deu na conjunção de três camadas.

A primeira camada foi às ruas. Mas as ruas, segundo sua análise, ganharam projeção nacional a partir das redes sociais. Aliás, o cerco da grande imprensa, que não noticiava a escalada de protestos urbanos que envolvia as principais cidades da Espanha, foi quebrada pelas informações multiplicadas nas redes sociais que acabaram por atingir a imprensa estrangeira.

Ruas e redes sociais compuseram o alimento explosivo da indignação urbana. Mas Toret sugere uma terceira camada organizativa que não se percebia até então: a televisão, na verdade, um programa de debates organizado por jovens professores universitários que ganhou o título de La Tuerka (cf. http://www.latuerka.net/). Tal programa foi apresentado originalmente na internet e seguiu a trajetória da Porta dos Fundos. Além do visual juvenil dos apresentadores e seu forte tom irônico, os participantes, em especial o cientista político Pablo Iglesias, convidavam jornalistas e personalidades de todas ideologias e os tratava com muito respeito, embora sem nenhuma facilidade no questionamento que faziam. Assim, ampliavam seus seguidores, dos universitários aos seguidores dos convidados (mesmo os de ideologia contrária, já que a entrevista era inteligente e respeitosa, promovendo o convidado e os entrevistadores), e se tornavam cada vez mais assistidos até se tornarem um fenômeno nas redes sociais. Ao mesmo tempo, era divulgado pelas cadeias da Asociación de Televisiones Locales de la Comunidad de Madrid. Criado em 2010, a primeira temporada começou em novembro daquele ano.

O fenômeno de La Tuerka repercutiu nas redes sociais e se colou ás manifestações de 2011.

Mas houve uma inflexão nos protestos urbanos que facilitou a convergência entre a crítica política e os protestos: o abraço no Congresso Nacional, em 2012. Naquele ano, 50 mil manifestantes abraçaram o parlamento espanhol e gritaram palavras de ordem questionando a representatividade dos deputados e sugerindo uma revolução política “desde os debaixo” em curso.

As três camadas (protestos de rua, redes sociais e televisão) criaram uma dinâmica de comoção, comunicação social e reflexão (neste último caso, tendo como motivador a televisão) que propiciaram a passagem da crítica à novidade institucional plasmada no Podemos.

Em janeiro de 2013, surgiu uma primeira iniciativa política que foi o Partido X (também conhecido como Partido del Futuro ou Red Ciudadana Partido X). A experiência não foi tão exitosa, como ocorreu com o Podemos, por vários motivos. Um deles foi justamente a ausência de um meio de reflexão. As redes sociais emocionam e mobilizam, mas não geram organização. A televisão, por ser um meio sem interação, exige um momento de maior introspecção. Outros analistas, contudo, sugerem que o Podemos teve maior abertura e envolvimento de movimentos sociais e organizações tradicionais, fazendo um link que o Partido X não promovia. O Podemos atraiu rapidamente lideranças da esquerda espanhola, como militantes da Esquerda Unida e trotskistas mandelistas, além de autonomistas e ativistas de organizações urbanas e redes sociais.

Em 2014, no início do ano, uma ação planejada lança o Podemos, de maneira meteórica. O manifesto intitulado “Mover ficha: convertir la indignación em cambio político” foi transformado num viral pela publicação digital Público, que era assinado por 30 intelectuais, personalidades da cultura, do jornalismo e do ativismo social e político, muitos sindicalistas e professores universitários. De cara, o manifesto afirmava a intenção de participar das eleições europeias que ocorreriam quatro meses adiante, em maio. Tal movimento se confundia (ou adotava como suporte) o partido Izquierda Anticapitalista. O programa exigia o caráter público da educação e da saúde, aumento dos salários e reindustrialização da Espanha, criação de habitações sociais e oposição à restrição à lei do aborto, além de defesa da migração estrangeira e saída da Espanha da OTAN. Também defendia a autonomia da Catalunha para decidir sobre sua independência. A crítica radical à política de austeridade e o perfil ousado e jovial de suas lideranças ganharam as ruas e redes sociais. Nas eleições de maio para o Parlamento Europeu, o Podemos se insurgiu como quarta força espanhola, elegendo cinco deputados e conquistando 7,98% dos votos.

Dois meses depois, em julho, o Centro de Investigaciones Sociológicas (CIS) divulgava pesquisa em que o Podemos aparecia como segunda força política em intenção de voto popular, superando o PSOE e ficando 0,9% atrás do PP. PSOE e PP polarizam ideologicamente a política espanhola numa situação similar à que ocorre com PT e PSDB no Brasil.

Em outubro de 2014, a Metrocospia informava que Podemos já havia superado o PP, aparecendo como primeira força em intenção de votos na Espanha. Um mês depois, este partido-fenômeno já se insurgia com 22% das intenções de voto para as eleições de maio de 2014 (PSOE aparecia com 13% e PP com 10%).

Qual a peculiaridade desta nova forma-partido?

Há, sem dúvida, uma questão geracional que motiva a passagem da rua para o partido, no caso espanhol. Também érelevante a profunda crise econômica que afeta milhares de famílias de classe média que perderam suas moradias (em virtude do desemprego que atinge quase 50% dos jovens até 30 anos de idade) e bens familiares. É comum ouvir analistas espanhóis afirmarem que a rebeldia crescente se deve a uma jovem família de classe média ter que pedir guarida para seus vizinhos ou parentes nem sempre próximos para poder garantir um teto.

Mas há um discurso e práticas novas.

O “núcleo duro” do Podemos é composto por jovens comunicólogos e professores universitários. Vários deles prestaram consultoria ao eixo dos países bolivarianos, como Equador, Bolívia e Venezuela. Não são neófitos em política. Atraíram a Esquerda Unida, fundada em 1986 e que fundiu o Partido Comunista Espanhol, a Esquerda Republicana, a Juventude Comunista e os Ecossocialistas, entre outros.

Também não se deve subestimar a força da somatória das manifestações com intervenções nas redes sociais e o sucesso excepcional do La Tuerka.

Mas há ainda mais.

Os dirigentes do Podemos sabem trabalhar com a ironia e o cinismo, o que dá um tom jovial e também quase descompromissado, criando uma linha de identificação dos “de baixo” contra as “castas” econômicas e políticas, termo muito popularizado na Espanha, Grécia e Portugal, desde 2010.

No lançamento do esboço do Programa Econômico do Podemos, no final de 2014, o PSOE acusou-o de subtrair seu programa de 2010. No dia seguinte, com um largo sorriso irônico no rosto, como que deixando claro que se tratava de uma armadilha midiática que os experientes dirigentes socialistas se deixaram envolver, Pablo Iglesias afirmava que não tinham culpa se os socialdemocratas não tinham cumprido as promessas de 2010.

No seu penúltimo livro, Disputar la Democracia, publicado em 2014 e tendo o agora primeiro ministro grego, Alexis Tsipras, como prefaciador, Iglesias discorre sobre três temas dentre tantos da ciência política. Pergunta se a política é um jogo de xadrez ou boxe, aprofunda o conceito de realpolitik e disserta sobre o conceito de hegemonia. Pela análise, percebe-se que a utopia das ruas se plasma no Podemos como ironia e desconfiança cínica. O que cria uma identidade com o manifestante e cidadão que não crê mais nas promessas dos partidos hegemônicos.

Iglesias é taxativo. À página 34, afirma: “a política do boxe aparece em toda sua crueza nas relações internacionais. Os exemplos são incontáveis. (…) A política do boxe [é]: ganha o mais forte.”

Sobre a realpolitik invoca o filme A Batalha de Argel. Analisa a passagem em que o chefe da Frente de Libertação Nacional é capturado e questionado sobre os motivos do uso de cestas-bomba contra a população civil. A resposta é uma oferta de troca de armamento, afirmando que o Exército de Libertação se sentiria encantado em bombardear a França com aviões. E, arremata: “a ética da responsabilidade [em Weber] que move qualquer comportamento político, a saber, a defesa do próprio projeto independentemente de seu fundamento ideológico [sugere que] a diferença entre um terrorista e um patriota é muitas vezes a diferença entre a vitória e a derrota” (p. 44 e 45).

Finalmente, sobre o conceito de hegemonia destaca: “Gramsci compreendeu que o poder das classes dominantes não só se exerce mediante instrumentos coercitivos ou relações econômicas derivadas do processo produtivo, mas também através do controle do sistema educativo, da religião e dos meios de comunicação e que, portanto, a cultura é um terreno crucial da luta política. (…) Isto quer dizer que a política não só está no Estado. Às vezes, está tanto dentro, quanto fora dele (…).” (p. 47)

Talvez, por este motivo, os líderes do Podemos não falam em esquerda ou direita. Falam em “os debaixo” e das “castas” (econômicas e políticas).

Talvez, esta seja a explicação para entendermos porque o Podemos se lança às eleições europeias sem direção e sem filiados (tinha, afinal, quatro meses de existência).

Este, talvez, seja o motivo para compreendermos porque a organização de base sejam Círculos de ativistas (algo próximo dos círculos de cultura criados por Paulo Freire) e porque suas lideranças decidiram não competir com o nome do partido (mas com nomes alinhados ao Podemos) nas eleições municipais deste ano (alguns dirigentes afirmam que não teriam controle sobre os candidatos, dada a filiação em massa dos últimos meses).

Talvez, pelo mesmo motivo, esteja aí a explicação de Iglesias publicar um segundo livro, em 2014, tendo como mote a análise de Game of Thrones. A coletânea soma cientistas políticos, feministas, ambientalistas, educadores, juristas, entre outros, que analisam a série muito comentada entre jovens e redes sociais a partir de seu ângulo de leitura profissional ou militante.

Na capa, Pablo Iglesias aparece sentado no Trono do Príncipe, nos trajes que o tornaram conhecido a partir do La Tuerka: camisa com mangas arregaçadas e gravata solta no pescoço, com a barba pouco aparada e o indefectível rabo de cavalo.

Não se trata de um jogo político ingênuo e basista. Trata-se de um jogo midiático que a velha forma partido não sabe ainda como jogar.

Podemos é um partido fluido, carismático, que atua sob forte pressão, articulado às ruas e redes sociais, irônico e cínico nas relações com lideranças tradicionais de seu país.

E assim, se articula com o Syriza grego, o Bloco de Esquerda português e tantas outras alianças regionais. Uma frente política de outro tipo. Com uma outra geração.

Ruda Ricci

Ruda Ricci

Sociólogo, doutor em Ciências Sociais, é diretor geral do Instituto Cultiva.
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