A formação do primeiro grupo dirigente do Partido Comunista Brasileiro (1919-1930)

Desde os primeiros artigos e ensaios, escritos e publicados, sobre a história dos comunistas brasileiros (1979, 1980, 1982), ainda quando era mestrando na Universidade Estadual de Campinas, procurei chamar a atenção para a especificidade do processo de formação ideológica do primeiro “grupo dirigente” do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Nestes primeiros escritos da década de 80 afirmava que havia certa homogeneidade cultural e política desses primeiros militantes (Astrojildo Pereira, Cristiano Cordeiro, Otávio Brandão, Heitor Ferreira Lima), produto da transformação ideológica do final do século XIX no Brasil .Um misto de republicanismo, evolucionismo e positivismo formava o horizonte ideológico dessa geração saída do movimento abolicionista e republicano e contaminada pelas influências socialistas, anarquistas e comunistas vindas de fora.

Foi nessa ocasião que aventei a hipótese de que a tão falada herança anarquista ou anarcossindicalista dos comunistas brasileiros precisava ser revista, em função da própria especificidade dos anarquistas brasileiros. Pois os nossos primeiros anarquistas deviam a sua formação a um verdadeiro “porre ideológico” (a expressão é do saudoso professor Evaristo de Moraes Filho) e não às influências europeias, trazidas na bagagem dos emigrantes italianos, espanhóis ou portugueses. A nossa cultura libertária nunca foi muito ortodoxa, sendo ela própria fruto de um enorme ecletismo ideológico; a ponto de o historiador Michael Hall (A classe operária no Brasil) falar em sindicalismo revolucionário ou anarcossindicalismo, ao invés de anarquismo. Os chamados anarquistas puros mantinham uma razoável distância do movimento sindical (e das massas operárias), desenvolvendo uma atividade pedagógica por meio do teatro, da literatura e da escola. E os sindicatos que reivindicavam a influência anarquista eram organizados a partir de “declarações de princípios” anarquistas, o que os afastava muito da luta de massas e das demais correntes políticas.

Por tudo isso, justifica-se a ideia da busca de caracterização dos principais traços dessa “mentalidade” protocomunista, nos anos 20. Desde logo, é possível encontrar sinais da herança jacobinista do abolicionismo e do republicanismo do século XIX no Brasil. Herança jacobina (nacional-popular) responsável pela constante aproximação desses primeiros militantes em relação à pequena-burguesia urbana, por meio da Maçonaria. Lembrar que a questão maçônica foi ponto de pauta do 5° Congresso da Internacional Comunista (IC) e que o PCB teve o seu reconhecimento rejeitado por conta da dupla filiação de vários militantes comunistas. No nosso entendimento, a sobrevivência da dupla filiação dos comunistas brasileiros é um forte indício da herança jacobina (nacional-popular) nos integrantes do primeiro grupo dirigente do PCB. Outro aspecto a ressaltar é a visão evolucionista, linear e positivista da História, defendida por esses militantes em suas análises da sociedade brasileira. Mais do que marxista-leninista, é de inspiração novecentista (spenceriana e comteana), assimilada das influências político-culturais comuns da época.

Esses “pais fundadores” do marxismo brasileiro integram uma geração romântica que atuou em condições de relativo isolamento em relação às táticas e estratégias do movimento comunista internacional (IC) e por isso mesmo foi capaz de elaborar uma formulação “nacional” (não nacionalista) sobre os caminhos da revolução brasileira (Revolução Democrática Pequeno-burguesa, como disse Otávio Brandão), nem democrático-burguesa, como querem alguns, nem democático-antiimperialista, como proclamava a IC, no seu VI Congresso.

A teoria da Revolução Democrática Pequeno-Burguesa (justificativa em detalhe da política de aliança com a pequena-burguesia revoltosa da Primeira República) como a demonstração cabal da originalidade e especificidade do primeiro grupo dirigente do PCB é nossa tese fundamental. Uma hermenêutica histórico-revolucionária totalmente em desacordo com a política anti-trotskista vigente nesse período, na ex-União Soviética, já sob o controle de Stalin. Este desacordo ficará mais patente nas seções do comitê latino do VI Congresso da IC e, mais ainda, no encontro dos Partidos Comunistas latino-americanos, em 1929, em Buenos Aires, onde Otávio Brandão – o principal teórico do PCB – foi obrigado a se retratar e a se enquadrar na estratégia revolucionaria da IC para os países latino-americanos. De toda maneira, embora não seja esse o foco principal deste trabalho, valeria a pena destacar a originalidade desse pensamento político, no âmbito da cultura marxista-leninista da época.

O foco aqui é a constituição desse primeiro núcleo dirigente do PCB, formado pelas figuras de Astrojildo Pereira, Cristiano Cordeiro, Otávio Brandão e Heitor Ferreira Lima. Alguns desses personagens, tive o prazer de conhecê-los ainda em vida. Outros foram objetos de coletâneas e ensaios. Tive a oportunidade de resgatar para a história das ideias políticas no Brasil a obra de Otávio Brandão, subestimada ou subvalorizada pela ensaística brasileira, particularmente pelo trabalho de Leandro Konder, com quem troquei cartas amistosas sobre o assunto. É meu objetivo fazer um relato biográfico de cada um desses militantes, analisar o seu pensamento e relacioná-los, procurando o que há de comum entre eles e o seu ambiente sócio-cultural. Para isso, devo revisitar as obras escritas e publicadas, resoluções, artigos, cartas e outros manuscritos, bem como os relatos disponíveis sobre a história de vida de cada um.

Entre as coletâneas organizadas e publicadas por mim estão: Construindo o PCB (1922-1924) e Memória e História 2: Escritos políticos de Cristiano Cordeiro, editadas pela antiga Livraria e Editora de Ciências Humanas, de São Paulo, LECH (3) Também publiquei opúsculos e cartas desses militantes em: Na busca das origens de um marxismo nacional (1985) e O PCB e a Internacional Comunista (1988). Quanto à historiografia do Partido Comunista, os autores mais importantes são Edgard Carone, Leandro Konder, Paulo Sérgio Pinheiro, Marco Del Royo, Martim Cesar Feijó, Antonio Segatto, John Foster Dulles e Augusto Buonocore. Os conceitos-chaves de “grupo dirigente” e “cultura política nacional-popular” foram tomados de empréstimo da ensaística italiana. No caso do primeiro, a procedência é da magistral obra de Paolo Cipriano, sobre La formacion del grupo dirigente do PCI. Roma, Riuniti, 1972, vol. l. No caso do segundo, a autoria é de Antônio Gramsci, Literatura e vida nacional. Il Rissorgimento.

Conforme o depoimento colhido por Gilberto Freyre, para a redação do livro Ordem e Progresso, o futuro fundador de PCB, Astrojildo Pereira, teria participado (quando jovem) da campanha abolicionista e republicanista, no final do século XIX. O interesse da revelação contida nesse testemunho nos leva a crer que o militante social compartilhasse profundamente do horizonte intelectual da geração, envolvida nos embates jacobinos do final do século.

Esse horizonte já foi caracterizado, de outra feita, como um misto de positivismo, evolucionismo e monismo, segundo as doutrinas filosóficas predominantes nas academias de Direito, e no âmbito do próprio movimento socialista europeu. A recorrente confusão que reinava nessa época entre a doutrina positivista e evolucionista de Auguste Comte com o pensamento socialista, na segunda metade de século XIX, que fazia, aliás, do pensamento de Marx um discurso positivo do método das Ciências Sociais, e do próprio Materialismo Histórico uma Ciência positiva da História e das lutas sociais, certeza ajudou muito a marcar a recepção das ideias socialistas como uma variante do pensamento jacobino mais exaltado. Quando Leandro Konder, em sua conhecida tese de doutorado (A recepção das ideias de Marx no Brasil), afirma que tal recepção foi subsumida pelo positivismo, esquece que esta subsunção se dá, antes, na própria Europa com os Partidos Socialdemocratas, sob a supervisão de Engels, Kautski, Bernstein etc. A sua chegada à América do Sul embalada por aquelas doutrinas é uma mera consequência do processo de transformação da herança da filosofia clássica alemã, sob o influxo das novas ideias de Darwin, Spencer e Auguste Comte. O que ocorreu é que, nas circunstâncias brasileiras, a herança sofreu o contágio do jacobinismo republicano e foi desaguar nos primeiros núcleos socialistas, anarquistas e trabalhistas. Há fortes indícios desse ecletismo ideológico no movimento social desse período (veja-se opúsculo escrito por esse antigo militante operário: Augusto Azevedo. Fragmentos da história operária. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional)

Acredito que a reiterada tentativa dos nossos militantes sociais (anarquistas, socialistas e comunistas) em buscarem alianças com a pequena-burguesia urbana no Brasil (mais do que com o campesinato) pode ser razoavelmente explicada pela herança jacobina, nacional-popular, desses militantes. Em vários momentos da historia, é possível surpreender essa busca de aproximação ora dos comunistas em relação aos tenentes, ora dos anarquistas com os tenentes e assim por diante. Talvez o documento político mais relevante, neste sentido, seja o opúsculo de Octávio Brandão: Agrarismo e Industrialismo. A guerra de classes no Brasil e a revolta de São Paulo. Buenos Aires, 1926, que se torna a base mais importante do documento do PCB: As tarefas da revolução democrático-pequeno-burguesa (Autocrítica) e vai influenciar as teses do II Congresso Nacional do PCB (La Correspondencia Sudamericana).

Curiosa é também a dupla filiação dos nossos primeiros comunistas: ao partido e à maçonaria. Lembrar que esta questão foi ponto de pauta do IV Congresso da IC, em março de 1922. E que o reconhecimento e a adesão do PCB ao Movimento Comunista Internacional foi rejeitada sob a alegação de que havia membros do partido brasileiro que eram maçons (Everardo Dias, Cristiano Cordeiro, Maurício de Lacerda). Na verdade, a Maçonaria tornou-se um canal informal de articulações políticas entre comunistas, socialistas e tenentes. Deve haver, sem dúvida, alguma relação entre a ideologia maçônica e a cultura política desses primeiros comunistas, na direção da “nacionalização” do socialismo brasileiro.

É de se reconhecer que a primeira geração dos militantes de onde se originou o grupo dirigente do PCB nos anos vinte (Astrojildo Pereira, Octávio Brandão, Cristiano Cordeiro, Heitor Ferreira Lima) tinha nascido no fim do século XIX. Possuía instrução formal e habilidades profissionais ou burocráticas. O último era alfaiate. Cordeiro era funcionário público. Astrojildo, crítico literário. E Octávio Brandão, um pequeno farmacêutico.

Questões de método

Segundo Antonio Candido, em sua conhecida obra Formação da Literatura Brasileira – Momentos decisivos. São Paulo: Edusp, 1975, dois princípios regem a vida cultural dos povos: o cosmopolitismo e o nacionalismo. Os autores que conseguem “nacionalizar” a hermenêutica de suas sociedades, fugindo da abstração e mera repetição das formulações gerais são aqueles que criam uma espécie de teoria social original. Já os autores cosmopolitas se limitam a aplicar às suas sociedades esquemas e teorias universais mecanicamente, sem levar na devida conta a especificidade dos processos sociais de seu meio. No caso latino-americano, destacam-se pela originalidade de suas formulações: Mariategui, Marti, Sarmiento, Ibarruri etc. No caso do Brasil, o primeiro ensaísta enquadrado nessa categoria seria – para alguns – Caio Prado Junior.

Para nós a obra do historiador paulistano não pode ser considerada pioneira nesse esforço hermenêutico marxista original. Nem na obra teórica (A Dialética do Conhecimento) nem nos ensaios de interpretação da realidade brasileira (Formação do Brasil Contemporâneo). Os seus trabalhos acompanham a reflexão teórica da escola “circulacionista”, encabeçada por André Gunder Frank que define o modo de produção colonial pela acumulação processada na esfera da circulação, e não pelos processos produtivos internos (a economia do açúcar, o ciclo do ouro, o café etc), sem levar em consideração as relações de produção vigentes na economia colonial. Para Caio Prado, o Brasil era capitalista pela sua mera inserção no sistema colonial. O que levaria o ensaísta paulistano a dessentir da linha oficial do Partido Comunista, cuja interpretação da economia brasileira apontava para a permanência de restos feudais ou pré-capitalistas na agricultura do país.

A primeira obra marxista-leninista, escrita no Brasil, que tematiza as contradições da nossa sociedade e aponta os caminhos da revolução brasileira, em consonância com a nossa história, nossos atores e a nossa tradição é de Otávio Brandão, Agrarismo e Industrialismo. A revolta de São Paulo e a guerra de classes no Brasil. Este é um texto que, malgrado todas as suas vicissitudes teórico-metodológicas devidas ao autodidatismo do autor, contém as sementes de uma análise original da luta social no Brasil, à luz das manifestações de revolta da pequena-burguesia civil e militar da Primeira Republica. A importância desse trabalho se evidencia pelo fato de ser ele a base para o programa político do PCB e a fonte das teses do II e III Congressos do Partido; sendo violentamente rechaçado no final dos anos vinte com a mudança de política da Internacional Comunista para a América Latina e a subordinação dos comunistas brasileiros ao Movimento Comunista Internacional (IC).

Muito haveria que dizer sobre esta tese a propósito da controvérsia que ela provocou na historiografia do comunismo brasileiro, haja vista os trabalhos de Kazumi Munakata (Cenas brasileiras), Paulo Sérgio Pinheiro (As estratégias da ilusão), Edgard Salvadori De Decca (O silêncio dos vencidos) e Marco Aurélio Garcia (Apresentação, do meu livro: O PCB e a Internacional Comunista). Estes autores foram analisados criticamente na Introdução do livro Os comunistas em céu aberto, que estuda a campanha do Bloco Operário e a política de alianças do PCB na década de 20.

Aqui, preferimos dialogar com o ensaísta carioca Leandro Konder, cuja tese (A derrota da dialética. A recepção das ideias de Marx no Brasil) trata exaustivamente desse período da formação do marxismo brasileiro e expõe um ponto de vista contrário ao que é aqui defendido.

Já criticamos, em trabalho anterior, o risco do anacronismo teórico-metodológico de analisar a obra de autores brasileiros, dos anos vinte, pelas lentes (presumivelmente mais preparadas) da nossa época, com o objetivo de desqualificação política ou ideológica dessa obra. Não se pode cobrar de um revolucionário autodidata do início do século a mesma coerência e rigor exigidos de uma tese acadêmica. E, no entanto, o trabalho de Brandão é muito mais original e interessante do que a tese do Leandro (que se julga um dialético melhor) que se limita a dizer que a derrota da dialética no Brasil é fruto da sua subsunção ao stalinismo. Aí está um exemplo de uma análise cosmopolita (e abstrata) do fechamento teórico e ideológico provocado pelo stalinismo no âmbito do marxismo internacional. Cedeu à tentação de aplicar esquemas gerais e recorrentes no Movimento Comunista Internacional, sem se importar com os processos (e a elaboração) internos em cada partido-membro da IC.

Ora, o que se sabe é o relativo isolamento em que se deu a elaboração desse pensamento. Até meados de 1926, era absolutamente precária a relação orgânica e ideológica da Internacional Comunista com a América Latina, apesar da criação do seu Birô Sulamericano, em Buenos Aires, e da publicação da revista La Correspondencia Sudamericana, destinada a orientar a estratégia dos partidos comunistas latino-americanos. Ainda em 1928, o secretário-geral do PCB, Astrojildo Pereira, reclamava da deficiente comunicação de Moscou para com as demais seções nacionais da IC. Por tudo isso, é injusto e incorreto imputar os erros ou as deficiências teóricas e políticas do PCB à sua subordinação ao marxismo-leninismo, como querem alguns.

Em verdade, há dois aspectos intimamente entrelaçados nessa discussão historiográfica. Um é um paradigma hegemônico da chamada Revolução Burguesa (e suas variantes: anti-imperialista, terceira revolta, revolução permanente) no Movimento Comunista Internacional. O outro é da completa e total submissão de suas seções nacionais ao Komintern (IC). Os autores que subestimam ou ignoram a especificidade da elaboração teórico-política do PCB, nesta época, no geral comungam de ambas as teses. É o caso de Marco Aurélio Garcia, Kazumi Munakata, Edgard Salvadore De Decca e Paulo Sérgio Pinheiro. Estes ensaístas fazem uma crítica dogmática e descontextualizada, partindo dos estereótipos e clichês mais comuns produzidos pela historiografia da 3ª Internacional Comunista e sua relação com os partidos comunistas dos chamados “países semicoloniais” e “dependentes”, conforme a tipologia do VI Congresso da IC.

Da minha parte, desde os anos 80, venho procurando chamar a atenção para a situação de relativa autonomia da atuação desses partidos, numa época em que a América Latina ainda não tinha despertado o interesse estratégico (para a Revolução Mundial) da Internacional Comunista. O que certamente concorreu para formulações políticas mais coladas à circunstância histórico-social dessa região. Nessa linha de investigação, estão José Antonio Segatto, Marco Del Roio, Ricardo Antunes, Dario Canale e, de certa forma, Leandro Konder.

Corrigir o erro de interpretação daqueles que acentuam a heteronomia política do PCB, a partir da sua subordinação à IC e ao paradigma dominante da Revolução Democrático-Burguesa não tem sido fácil, sobretudo numa cultura política saturada por um “anticomunismo de esquerda”. É mais fácil e sedutor atribuir os equívocos e insuficiências teóricas ao stalinismo ou ao centralismo burocrático da IC, do que fazer a pesquisa empírica do processo de formação ideológica desses primeiros dirigentes comunistas. Mas é isso o que estamos propomos.

Os estudos sobre a história política ou dos movimentos sociais ganharam uma valiosa contribuição com o auxílio da antropologia política ou com a chamada história das mentalidades. O emprego do conceito de “cultura política”, na análise da formação ideológica dos militantes sociais, esta espécie de etnografia política, a partir da “mentalidade” específica de um grupo ou categoria social, nos levou à obra renovadora do marxista italiano Antonio Gramsci e ao seu conceito de “cultura nacional-popular”, baseado numa comparação entre o papel dos jacobinos na Revolução Francesa e o papel protagonizado pelo Partido da Ação, no processo da unificação nacional italiana (Il Rissorgimiento).

A cultura “nacional-popular” seria o cimento ideológico que permitiu a união entre “cidade” e “campo” na França, a aliança entre os jacobinos de Paris e os camponeses franceses. Dessa forma, podemos caracterizar esta mentalidade de antiliberal e republicana, nacional e popular (ou democrática), devendo ser usada como contraponto ao liberalismo oligárquico dominante, sobretudo em países de capitalismo tardio, como é o caso do Brasil.

Quem seriam os jacobinos brasileiros? – A nosso ver, a geração de políticos, publicistas e militantes sociais que se envolveu na causa da Abolição e do Republicanismo no fim do século dezenove, tão bem discutida e apresentada por Gilberto Freyre em Ordem e Progresso. Avulta nos depoimentos colhidos por Freyre a matriz antiliberal, antioligárquica, muito influenciada pelas doutrinas filosóficas da época (monismo, evolucionismo, positivismo). Esta matriz seria a porta de entrada do pensamento social brasileiro, em contato com a bagagem ideológica dos imigrantes italianos, espanhóis e portugueses.

Nunca será demais insistir que, no Brasil, a relação entre socialismo-anarquismo-marxismo foi precedida de uma atmosfera intelectual – em parte fruto da II Internacional – onde se entrelaçavam confusamente traços de Positivismo, Evolucionismo e Monismo. E que, sem dúvida, as forças sociais que proclamaram a república brasileira em 1889 se alimentaram fartamente desse “porre ideológico”. Como movimentos pequeno-burgueses por excelência, o Abolicionismo e o Republicanismo encontraram nesse ecletismo doutrinário o conteúdo possível da manifestação do seu jacobinismo político. Daí ter sido a República o berço dos primeiros grupos e partidos socialistas do Brasil. Acrescente-se a isso a circunstância mesma de ter sido o legado da II Internacional uma obra de inegável sabor evolucionista que, onde se fez conhecida, foi responsável pela criação de partidos socialistas reformistas e pequeno-burgueses, confundindo-se, nos episódios da luta política, com o jacobinismo mais exaltado. Vem dessa confusão, com certeza, a associação já no século XIX entre Republicanismo e Socialismo no Brasil. Era o segundo o modo de ser do primeiro.

Por sua vez, essa atmosfera intelectual se transferiu da cena política republicana para as cátedras das Faculdades de Direito como um sopro renovador do liberalismo jurídico então predominante. Onde houve renovação, um misto de Positivismo, Evolucionismo e Monismo esteve presente, num meio fortemente dominado pelo liberalismo ou o catolicismo social. Disso se alimentaram, sem dúvida, os reformistas e revolucionários sociais da Primeira República brasileira: Cristiano Cordeiro, Joaquim Pimenta, Maurício de Lacerda, Astrojildo Pereira, Evaristo de Moraes e outros. Assim, antes de terem sido anarquistas, anarcossindicalistas, socialistas “legalitários” ou “possibilistas” e comunistas, uns e outros foram vítimas desse ecletismo ideológico, tendo suas ações por ele influenciadas até o fim de suas carreiras de militantes políticos e sociais.

Mas este trabalho pretende reconhecer na trajetória individual de cada um dos dirigentes comunistas as influências político-culturais dessa época. Em primeiro lugar na formação de Astrojildo Pereira, fundador de PCB e seu virtual primeiro secretário-geral. Ele nasceu em 1890, na cidade de Rio Bonito, no estado do Rio de Janeiro. Segundo seus biógrafos e contemporâneos, na juventude frequentou cafés e centros culturais dominados pelo jacobinismo radical de um Silva Jardim, um Lopes Trovão etc. Sua família teria apoiado a proclamação republicana e se beneficiado do novo regime. Seu pai, um pequeno produtor rural e comerciante, teria se tornado um chefe político da região. Astrojildo, desde cedo, se desgarraria da influência política familiar e buscaria outros caminhos, até descobrir as primeiras leituras anarquistas. Há o episódio do apoio, na juventude, à campanha civilista encabeçada por Rui Barbosa contra o marechal Hermes da Fonseca. O que faria alguns atribuir a Astrojildo a pecha de “liberal” em oposição ao “militarismo” da Primeira República. Mas este episódio seria muito curto, não só em função da derrota de Rui Barbosa nas eleições presidenciais, mas, sobretudo em face de sua desilusão com o regime político republicano, com a triste sorte que tiveram os marinheiros rebelados, na conhecida Revolta da Chibata. A isso, vir-se-ia acrescentar o fuzilamento do educador espanhol Vicente Ferrer, na Europa, iniciando-se, a partir de então, a sua militância no movimento anarquista até os inícios da década de vinte. Pode-se, então, com segurança, afirmar que a formação ideológica de Astrojildo Pereira é devedora do contexto positivista e republicano e da sua aproximação com a campanha jacobina do republicano radical Lopes Trovão.

A controvertida (e rápida) conversão de Pereira ao credo liberal, por influência da retórica política de Rui Barbosa, como querem alguns, parece não ser muito consistente. Já sua adesão às doutrinas anarquistas e anarcosindicalistas parece ser fruto dessa iniciação republicana e jacobina. Fenômeno que ocorreria com outros militantes sociais na Primeira República.

A outra história de militância exemplar, a este título, seria a do pernambucano Cristiano Cordeiro, que deve a sua formação à Faculdade de Direito do Recife, mas acima de tudo à pregação socialista do professor Joaquim Pimenta, grande doutrinador das ideias monistas, evolucionistas e positivistas da época. (conferir sua autobiografia Retalhos do Passado, bem como sua publicística nos jornais e revistas desse período). Cristiano, que se declarou inicialmente anarquista e viu no Cristianismo os primórdios dos movimentos socialistas, deve a sua conversão ideológica, primeiro, à sua indignação moral ante a escravidão negra nos engenhos de cana de açúcar, depois, à convivência com operários e líderes sindicais no início da República, particularmente, no período chamado de “salvacionismo”, ou seja, a queda da oligarquia política de Rosa e Silva, em Pernambuco. Este período, que coincide com a campanha civilista dos setores médios urbanos, assinala a emergência do povo e da classe operária na cena política republicana, com o decidido apoio das massas urbanas à candidatura do general Dantas Barreto. Apoio, aliás, recompensado com a indicação de dois líderes operários à Assembleia Estadual. A partir daí, inicia-se a militância socialista e anarquista de Cristiano Cordeiro, através de sua assessoria à Federação das Classes Trabalhadoras de Pernambuco, juntamente com o seu mentor intelectual, o professor Joaquim Pimenta.

O terceiro personagem de importância na formação do núcleo dirigente do PCB é o alagoano Octávio Brandão, originário de Viçosa. Certamente, o mais polêmico, controverso e complexo dos três. Embora, tenha sido farmacêutico por profissão, Brandão, desde muito cedo, manifestou um interesse invulgar pelas ciências da natureza, particularmente, geologia e botânica. Foi um pioneiro na prospecção e descoberta de petróleo nos canais e lagoas de seu estado. O que mais chama atenção é a mixórdia de conhecimentos e informações científicas que ajudou à construção de sua visão de mundo, rodeada de um forte misticismo ou romantismo revolucionário. Do núcleo dirigente original, é o elaborador mais idiossincrático e prolífero (publicou em vida inúmeras brochuras sobre assuntos variados). A sua autobiografia foi muito prejudicada pelo excesso de vaidade e narcisismo, mas permite reconhecer os traços de sua construção ideológica. Como outros de sua geração, ele se opôs à oligarquia alagoana e seu liberalismo de fachada e participou ativamente das manifestações sociais da época, juntamente com o anarquista Abelardo Canellas, autor de um folheto que descrevia uma experiência pedagógica libertária francesa, chamada “A colmeia” (La ruche). Em consequência, teve de exilar-se em Pernambuco e, depois, no Rio de Janeiro. Na capital do país, entrou em contato com o meio anarquista e passou a colaborar frequentemente com as colunas dos jornais operários e a produzir farta matéria doutrinária, sempre recheada com uma boa dose de misticismo religioso. Dos militantes sociais, foi com certeza o mais heterodoxo de todos. Pois além da mistura muito comum, na época, de ideias filosóficas distintas de matriz antiliberal, seu pensamento apresenta uma visão romântica e lírica da vida e da sociedade. (A propósito, leia-se “Veda do novo mundo”) Não se sabe ao certo, como uma personalidade tão excêntrica e multifacetada foi resultar num ideólogo do comunismo brasileiro, escrevendo a primeira análise marxista-leninista da sociedade brasileira – Agrarismo e industrialismo. A guerra de classes no Brasil e a revolta de São Paulo.

A tese principal deste trabalho é que o primeiro grupo dirigente do PCB foi composto, originalmente, desses militantes sociais. Curiosamente, nenhum de São Paulo, onde a hegemonia das ideias anarquistas e anarcossindicalistas estrangeiras era muito forte. Pode-se, também, aventar a hipótese de que “o civilismo das camadas médias paulistas” afastou de princípio toda e qualquer hipótese sobre a existência de uma pequena-burguesia jacobina – vinda do movimento abolicionista e republicano – que ofertasse esse tipo de militante social, apesar do apoio que os anarquistas deram aos revoltosos de 1924 em São Paulo (sobre isto, veja-se: Anarquistas e Comunistas no Brasil, a quarta parte). A ideia é que, em se tratando de regiões periféricas ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil, o Rio de Janeiro, Pernambuco, Alagoas e outras unidades da federação terminaram sendo a origem de uma cultura política nacional popular (e jacobina) totalmente estranha à sociedade paulistana. A esse respeito, é muito interessante o trabalho da historiadora carioca Maria Alice Rezende, A fábrica e a política, sugerindo que o modo de vida fabril é uma matriz ressocializadora distinta da do mercado político. Daí a peculiaridade do movimento anarquista em São Paulo, comparado às manifestações operárias e socialistas ocorridas noutros estados brasileiro.

A este núcleo inicial agregaram-se outros militantes, como Heitor Ferreira Lima, oriundo de Mato Grosso e alfaiate de profissão, que viria a ter um papel importante na transição desse núcleo dirigente para outro já controlado ideologicamente pelo movimento comunista internacional. Heitor, que passara quatro anos na Escola Leninista, de Moscou, seria o secretário-geral que conduziria a transição para um novo grupo dirigente e uma nova fase da vida do PCB, conhecida por “obreirismo” ou “proletarização”.

Michel Zaidan

Michel Zaidan

Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco.
Michel Zaidan
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