A contemporaneidade latino-americana em tempos democráticos

Em tempos de “modernidade líquida”, onde a diluição das fronteiras espaciais, a aceleração do tempo e a verticalização do político transformam a concepção do pensar e agir político e, por conseguinte, reorientam as perspectivas historiográficas, a busca de entendimento dessa realidade expressa no livro Um lugar no mundo: estudos de história política latino-americana, de Alberto Aggio, professor no Câmpus da Unesp em Franca, SP, materializa-se como proposta de (re)visão da contemporaneidade latino-americana, a partir de reflexões tanto acerca de seu passado quanto do tempo presente. Em termos mais acadêmicos, tais reflexões visam promover também uma nova tradução para um espaço especificamente historiográfico: a história política latino-americana. Tal proposta está inserida dentro de uma conjuntura latino-americana cuja hora presente encontra-se balizada pelo pêndulo da democracia.

Diante dessas novas perspectivas para a região, respaldadas por um novo “acontecimento histórico”, tendo em vista as novas relações políticas entre Estados Unidos e Cuba, que podem aprimorar a atual convivência continental americana, abre-se a possibilidade de superar antigos dogmas, conforme elucidou o historiador Joan del Alcàzar, professor de História Contemporânea da Universidade de Valencia, em brilhante prefácio ao livro.

Posicionando a América Latina na modernidade, incorporada junto ao processo de ocidentalização do mundo, Alberto Aggio elabora uma interpretação dessa contemporaneidade latino-americana por meio de uma crítica à “visão do atraso”, que procurou desvincular a América Latina da própria modernidade global.

Em seu texto introdutório, ao pensar as transformações decorrentes do final do século XX, Aggio chama atenção para a necessidade de superar visões dogmáticas a respeito do continente. Em primeiro lugar, trata-se de “vencer as velhas orientações de ruptura com o colonialismo ou com a dependência que faziam parte de uma forma de compreender a América Latina própria das décadas de 1950 e 1960” (p. 24).

Em relação a essa questão, importa destacar o fato de que tanto a perspectiva da Revolução Cubana, como vetor radical da democratização social, quanto o “programa” neoliberal, e sua radical imposição de ideia de mercado, não conseguiram amalgamar um determinado consenso político no continente e ambas as orientações fracassaram.

De acordo com o autor, após o período de redemocratização na região, a questão democrática tornou-se elemento central na compreensão das dinâmicas político-sociais latino-americanas. No que se refere especificamente à renovação das esquerdas, a democracia possibilitou o encontro entre correntes liberais e socialistas, “abrindo-se a perspectiva de se projetar para o continente uma esquerda com vocação de governo, identificada como democrática, moderna e reformista” (p. 28). A partir de tais premissas, Alberto Aggio, entrelaçando o trabalho acadêmico e intelectual, analisa diversos processos históricos na América Latina, a fim de se compreender melhor o lugar do continente nessa contemporaneidade.

A partir de um posicionamento abertamente democrático-reformista, o autor avalia criticamente alguns processos políticos e categorias analíticas que, durante muito tempo, balizaram opções políticas e intelectuais na construção da história latino-americana. Temas como a teoria do populismo, os usos de Gramsci na história política latino-americana, a Revolução Cubana e a “via chilena ao socialismo”, intelectuais e política, autoritarismo e transição democrática no Brasil e Chile, entre outras dimensões, são problematizados num texto de leitura obrigatória para especialistas e gratificante para o público em geral.

Um lugar no mundo toma a América Latina a partir de uma perspectiva global e universal e, por isso, uma das suas principais contribuições é a de ser capaz de realizar uma análise horizontal da história política, demarcando a complexidade “das dinâmicas e vicissitudes da política, que dão expressão aos atores em suas contradições, orientando ou reorientando tanto os processos e os sentidos como também o que é essencial na História” (p. 146).

Por: Victor Augusto Ramos Missiato


 

 

Sobre a obra: Um lugar no mundo – Estudos de história política latino-americana, de Alberto Aggio. Coleção Brasil e Itália. Fundação Astrojildo Pereira, Editora Contraponto e Fondazione Istituto Gramsci, 2015. 252p.

Victor Augusto Ramos Missiato

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História (PPGH), na Faculdade de Ciência Humanas e Sociais, da Unesp de Franca.

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