A democracia sob ataque

Não há semana em que não sejamos pegos de surpresa por novas denúncias e/ou ações da Polícia Federal, do Ministério Público ou da Justiça, em qualquer das suas instâncias, no seu inusitado combate a um modo moderno de açambarcar recursos públicos, em benefício de grupos ou de indivíduos. Um sistema de corrupção envolvendo a “coisa pública”, dominante há séculos, por parte de políticos, corporações do funcionalismo estatal e empresários, ganhou novos contornos negativos nos últimos 15 anos, e continua na sua tentativa de sobreviver a qualquer preço.

É natural que a maioria dos brasileiros tenha dificuldade para entender e aceitar que estas ações sistemáticas de corrupção constituem sobretudo crescentes ataques à democracia que, há um pouco mais de trinta anos, tentamos fazer novamente funcionar. E há necessidade de se enfrentar esta batalha, de uma ponta a outra do país, de cima a baixo, a fim de evitar o completo apodrecimento das instituições brasileiras. Tudo o que vem acontecendo, na última década e meia, envergonha o nosso povo, como também os políticos de bem que, felizmente, ainda existem, embora sejam poucos.

A delicada e complexa situação em que o Brasil vive, mergulhado também em uma crise econômica, social e política, oriunda sobretudo deste descalabro de corrupção, acompanhada de patrimonialismo partidário e assistencialismo, é o centro de grande parte dos artigos que publicamos nesta edição. Há análises, as mais variadas, sobre este difícil momento atualmente vivido pelo país e todas elas buscam nos colocar diante desta triste realidade, que precisa ser radicalmente substituída por uma outra.

Todos os nossos colaboradores, preocupados em identificarem as raízes dos nossos problemas, põem o pé no chão, no que creditamos como atitudes corretas, quando se trata de possíveis encaminhamentos de saídas imediatas deles. Sabem que não haverá solução rápida e profunda, mas que o Brasil que se deseja e pelo qual se luta não se alcançará sem que haja um conjunto de reformas de base, pelas quais os cidadãos e cidadãs deste país vivem alertando e exigindo, há mais de meio século.

É claro que brasileiros e brasileiras aguardam maior rapidez e a consumação não apenas da Operação Lava-Jato, que envolve algumas das maiores figuras da República, nos últimos 40 anos, como ex-presidentes, ex-ministros ou atuais ministros do Poder Executivo, presidentes ou ex-presidentes das Câmaras Alta e Baixa, assim como senadores ou ex-senadores, deputados federais, numa lista que ultrapassa uma centena, 13 governadores e ex-governadores, e dirigentes de empresas estatais, como a Petrobras (hoje profundamente afetada), e grandes empresários e seus asseclas.

Mesmo sabendo que a realidade econômica e financeira, embora lentamente, já começa a dar passos pequenos mas consequentes rumo à estabilidade e a um crescimento que poderá nos conduzir a novos rumos para o país, grande parte dos nossos cidadãos, ao tempo em que rejeitam e não admitem mais projetos de lei ou emendas constitucionais de pura enganação sobre a forma como se faz política entre nós, estão se inclinando a rejeitar a política e os políticos, e a aceitar e até defender líderes populistas como o capitão Jair Bolsonaro.

Nesse terreno movediço, há, porém, uma boa parte de pessoas que acreditam e defendem que não há outro caminho para a solução dos problemas do Brasil, como de qualquer país, que não seja o da política. E, por conta desta sua correta visão, são favoráveis a que se implante, por exemplo, o sistema de voto distrital misto e outras formas de se escolher melhor nossos representantes. Da mesma linha, exigem que se proponha e se materialize, antes e acima de tudo, uma verdadeira reforma política, pondo fim ao presidencialismo de coalizão, que nada mais é que um “presidencialismo de cooptação” e se estabeleça o parlamentarismo, regime mais moderno e mais identificado com a realidade contemporânea.

Imprescindível também para eles que se faça uma reforma democrática do Estado brasileiro, uma das máquinas mais caras existentes no planeta Terra, não apenas reduzindo o número de Ministérios e de Secretarias, Agências etc., mas também a absurda quantidade de seus funcionários, com seus supersalários. E, do mesmo modo, uma reforma tributária, que ponha fim às atuais desigualdades, em que os que menos têm e menos ganham são os que, proporcionalmente, mais pagam impostos. E outras reformas mais.

Deleitemo-nos com o rico material que contém esta edição.

Boa leitura!

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