Desentendimento, dogmatismo, mediações ausentes

Cada época carrega consigo um conjunto de características dominantes que demarcam o modo como se desenvolvem as práticas sociais em cada campo específico de atuação. A nossa não foge à regra.

Hoje, na política, a marca é a crise: nenhum sistema funciona bem, mais desagrada que agrada, cria mais problemas que soluções. Crise de governabilidade, crise de representação, crise da democracia, crise dos partidos – as etiquetas são muitas. Os governos estão na berlinda, seja de que partidos forem. Governam pouco.

Na economia, muita coisa gira em torno da flexibilidade. A localização perdeu relevância. Deve-se organizar e empreender a partir de planos elásticos, trabalhar de modo polivalente, evitar estoques, incrementar a produtividade mediante desproteção do trabalho e inovação tecnológica, explorar as vantagens da rotatividade, do consumo conspícuo e da substituição incessante de bens, seja por pressões da tecnologia, seja em decorrência da obsolescência programada. A flexibilidade responde às exigências da nova fase de acumulação. Pode ter efeitos que favoreçam o trabalho, mas em termos objetivos o desvaloriza enquanto fato de massa, concentrando-o em nichos especializados e empurrando o conjunto dos trabalhadores para o inferno do desemprego ou do subemprego.

Na universidade, fala-se muito em produtividade: os incentivos são para que se faça mais em menos tempo, se conquiste sempre mais visibilidade, se publique sem interrupção e se frequente um número sempre maior de eventos. Há controles e exigências de todo tipo, a pesquisa e a pós-graduação se expandiram, mas o cenário não é dos melhores, especialmente nos países, como o Brasil, que se atrasaram na constituição de seus sistemas universitários (e de ensino, em geral) e que hoje se movem sufocados pela invasão do mercado, pela rigidez e inelasticidade orçamentária, pela crise pedagógica e pela sindicalização dos espaços acadêmicos, sem conseguir atender de modo adequado nem à demanda dos jovens e da sociedade nem ao próprio mercado.

O quadro se desdobra no plano dos relacionamentos. Aqui, a marca forte é o desentendimento, a disposição de construir fortalezas de onde pelejar com os demais e vocalizar a própria opinião, tanto fazendo se isso é feito ou não para que se alcancem melhores patamares de entendimento. É uma marca que se combina com o desejo de ser “diferente” e de não integrar nenhuma “comunidade maior”, ou seja, de se individualizar e se tribalizar, fechando-se em guetos.

Efeitos do desentendimento

Há efeitos colaterais que derivam do predomínio dessa marca, especialmente quando os relacionamentos são atravessados por disputas políticas. Um deles é a elevação da temperatura verbal: não basta divergir, é preciso reduzir o outro a pó, tratá-lo como inimigo e não somente como alguém de quem se discorda. Em nome disso, o léxico da vida cotidiana ganhou em veemência na mesma velocidade que perdeu em rigor e coerência. A agressão verbal tornou-se prática discursiva. A elegância, a serenidade, a modéstia, a dúvida e o respeito ao pluralismo saem de cena, em benefício de argumentos de autoridade, frases de efeito e grosseria, essa última entendida como recurso de convencimento. Os interlocutores agem por uma espécie de compulsão retórica. Muitos nem sequer querem debater e eventualmente persuadir, mas intimidar. Outros tantos, convencidos ao extremo da “verdade” inerente às suas opiniões, não admitem a possibilidade de serem persuadidos pelo lado oposto.

Um segundo efeito é a expansão do dogmatismo, da postura que se apresenta como imbuída de uma superioridade intrínseca, que se afirma a partir de certezas prévias e trata a dúvida como expressão de tibieza, atitude de quem não seria forte o suficiente para manifestar a própria opinião. O dogmatismo, como se sabe, agride a realidade, os fatos e as evidências. O dogmático é alguém que segue livros, manias e escrituras, que somente chega ao real a partir de esquemas pré-concebidos, que ele invariavelmente associa a um tipo superior de verdade, filosófica, epistemológica ou religiosa.

A direita retrógrada e fundamentalista é uma fábrica de dogmáticos que jamais fecha. Ela se expande justamente quando o dogmatismo se reforça, pois depende bastante da fé cega e do fanatismo típicos dos dogmáticos e dos incautos, que precisam de muletas para se posicionar.

O marxismo, que é patrimônio da humanidade inteligente e livre de preconceitos, também tem sua versão dogmática. Nasceu libertário, secular e radicalmente antidogmático, mas, ao ser popularizado e instrumentalizado politicamente, impulsionou o dogmatismo, abrigando em seu próprio círculo inúmeros seguidores fiéis,imunizados contra os fatos, prisioneiros de convicções eternas, que não poderiam mudar jamais. O marxista dogmático é aquele personagem que se tem em alta conta, que pensa enxergar mais longe que os demais, que se considera firme como uma rocha, não abre mão de citações, livros-guia e manuais, não tendo um pingo de dúvida sobre o futuro radiante que virá com a revolução socialista. Como é um ser inseguro e necessitado de autoafirmação, costuma brigar mais com os marxistas não dogmáticos do que com as correntes que disputam a verdade com o marxismo. É fácil localizar nele a persona do arrogante. Não é propriamente um revolucionário, ainda que se apresente assim. Muitos deles são conservadores no plano da moral e dos costumes, refratários a inovações e à diversidade cultural. Na política, usam o maximalismo para defender posições radicalizadas na retórica e superlativas na indignação, mas pouco efetivas em termos práticos. Tendem a formar séquitos obedientes e igrejinhas que se acham autossuficientes e para as quais todos os infiéis são “inimigos de classe”.

O marxismo, porém, não é dogmatismo e rigidez doutrinária. Seu coração transgressor, totalizante, historicista e dialético continua a latejar, distante de determinismos mecânicos, da repetição passiva de frases de manuais, da pregação maximalista de “revoluções” que não encontram raízes em um terreno social categoricamente dinâmico e mutante. Ainda que hostilizado e desafiado pelos dogmatismos que vicejam em seu próprio interior, o marxismo mantém vivo seu compromisso racional, sua abertura filosófica e sua plasticidade em termos de práxis política. Junto com outras filosofias e teorias, compartilha a busca de uma criticidade que dialogue com a vida e se proponha a transformá-la, dando corpo a uma utopia realista.

Dogmáticos de todos os tipos – marxistas, religiosos, socialistas, neoliberais, conservadores, reacionários, de direita ou de esquerda – fazem um mal danado ao convívio social, à política e ao debate público democrático. São a antipedagogia em movimento: deseducam, dificultam que as pessoas pensem com a própria cabeça, travam o fluxo saudável de divergências e discussões, impedem a formação de consensos. Atuam como verdadeiros agentes do obscurantismo e do retrocesso ético-político.

Para pessoas assim, não há remédio que cure. Elas estão imunizadas contra a razão crítica e a história, que não as afeta. Continuam agarradas ao passado, que lhes dá segurança ontológica e base para demonstrações de virtuosismo teórico. Vivem em outra dimensão de tempo e espaço. Não se consideram dogmáticas, mas sim “ortodoxas”, portadoras de verdades e convicções duras, intransigentes, das quais julgam ser os únicos porta-vozes. No Brasil dos dias correntes, é fácil vislumbrar os efeitos perversos desta prevalência do desentendimento e do dogmatismo. Enfrentamos dificuldades épicas para manter viva uma discussão que precisa seguir em frente, rumo ao que deveria ser a tarefa de todos: reduzir animosidades e disputas estéreis, especialmente entre os democratas, para que assim se tenha alguma força para reformar o país.

O horror às mediações

Nossos dias andam congestionados de heróis e super-heróis, de gente convicta e determinada, que não tem dúvidas nem leva desaforo para casa, que perde amigos só para não perder o prazer de difundir uma frase contundente, que acha que a indignação precisa ser verbalizada com palavras fortes, se possível gritadas com veemência e ardor, que vê inimigos e conspiradores em todo canto, que faz da contraposição uma arma que fere e alimenta polarizações paralisantes, que acha que “tudo é política” e que as disputas por poder são o sal da terra.

São dias povoados por pessoas que têm horror à moderação, a pontes e mediações, que não cogitam de buscar articulações dialéticas que levem a unidades superiores e que, convencidas do valor heurístico da “luta”, pensam que a todo momento é preciso ativar batalhas e conflitos contra tudo e todos. São pessoas que competem, refratárias à cooperação, e que veem os moderados como uma espécie de raça inferior, formada por gente frouxa, dúctil demais, que capitula. Pessoas, em suma, que se entregam passivamente a estigmatizações dogmáticas, que vetam o pensar e o conhecer.

É uma espécie de mal da época, que pulsa com especial vibração no Brasil de 2016, mais até do que pulsou em outros momentos, como em 2014, quando o país praticamente se separou em dois. Hoje temos mais do que “dois países”. Eles são muitos, distintos entre si e incomunicáveis, cortados por diferenças sociais abissais, mas também por desentendimentos semânticos, disputas políticas e animosidade ideológica, tudo exponenciado e inflamado de forma irracional. O país real, porém, é um só, as maiorias caminham na mesma direção, ainda que achando que estão a escolher rumos particulares, individualizados.

Se olharmos para a política brasileira atual, para o sistema, vemo-lo de pernas para o ar, ofegante, desorientado. Nada parece funcionar bem nele, ainda que ele se mantenha e se reproduza há décadas. Deve-se tomar cuidado quando se fala que nossas instituições políticas vão bem, correspondem ao que delas se espera. O sistema funciona mal, mas parece blindado. Há partidos em número excessivo, constituídos como projetos pessoais vazios de intenções substantivas, graças a uma legislação que tudo permite. Os prepotentes, os arrogantes, os medíocres, os indiferentes aos cidadãos que deveriam representar ainda mantêm seus postos, quase inabaláveis. Alguns primam pela desfaçatez, outros se agarram quase fanaticamente aos pedaços de poder a que tiveram acesso, como se fossem eternos e não pudessem desaparecer. O sistema se mostra estável, mas não produz efeitos virtuosos – acima de tudo, não produz consensos e consentimentos, ou seja, precisamente aquilo que é vital para a democracia.

Na sociedade civil, sempre vista e tratada como eixo “positivo” e coração ético do Estado, o desentendimento assentou praça, a exibição de força tornou-se regra, a intolerância só faz crescer, quase não há mais ação comunicativa, ainda que todos falem o tempo todo. Aí dorme o problema principal, pois sem um ativismo democrático que construa pontes e as empregue para viabilizar uma pressão que prepare um futuro melhor, pouco haverá de correção de rumos e de recuperação do Estado. É impressionante, mas parece que ninguém se dá conta de que a democracia está perdendo qualidade não só porque o sistema político enfartou, mas porque os cidadãos democráticos não são capazes de se articular entre si e estão se devorando uns aos outros. A esquerda moderada e a centro-esquerda assistem à sua inoperância e a esquerda “pura”, mais radicalizada, é prisioneira de seus próprios fantasmas e idiossincrasias, esperneia e joga palavras ao vento, mas pouco faz. Ambas estão se distanciando da sociedade, perdendo a credibilidade
duramente conquistada ao longo da democratização do país. Sem a superação desse quadro, será difícil acontecer algo novo, até porque faltam lideranças, partidos, dirigentes e militantes com particular descortino político.

Estamos nos tornando uma nação de muita política e de pouquíssima política: de políticos ausentes e cidadãos indignados, que não sabem dialogar, não conseguem definir quem são os “inimigos principais”, os aliados e os adversários, não têm qualquer plano de voo, sem que ninguém apareça para fazer o mínimo requerido pela democracia: mediação.

Está na hora de começarmos a recordar alguns fundamentos. E a traduzi-los em termos práticos.

Back to basics

Não será somente com homens e mulheres moderados que moveremos a roda da História, ação que depende muito da força, da convicção e da sagacidade de massas e políticos. Mas sem pessoas com disposição para ouvir, ponderar, argumentar, mediar, será impossível cogitar de um futuro mais justo, fraterno e dialógico.

Por mais dificuldades que tenhamos para reconhecer isso – dadas as várias nuances teóricas e ideológicas que se associam ao conceito –, a democracia é um valor e uma “técnica” destinados, em última instância, a incrementar a convivência entre as pessoas e melhorar a distribuição dos recursos sociais.

A democracia também é, evidentemente, um procedimento para que se tomem decisões e se compartilhe o poder político, mas aquela sua finalidade básica está sempre presente. Em boa parte é por isso que preferimos a democracia à tirania, por exemplo. Com a prevalência da democracia, mesmo que “imperfeita”, temos mais chances de conviver melhor.

Isso deveria significar que estamos dispostos a pagar o preço da democracia. Ou seja, a lhe fornecer os pré-requisitos para que possa existir e produzir suas vantagens. Hoje, porém, ainda que todos se considerem democratas e cantem loas à democracia, há uma carência enorme em termos de aceitação dos pressupostos da convivência democrática.

A democracia exige que se aceite o conflito e a contradição – as diferenças, as desigualdades, as “lutas de classes” – não somente como legítimos, mas também como virtuosos: é mediante a explicitação e o processamento de seus antagonismos que uma comunidade
conhece a si própria.

Não pode haver democracia, portanto, sem pluralismo.

A aceitação do conflito e do pluralismo impõe a tolerância: o outro não é seu inimigo, mas alguém que pensa diferente de você, que tem interesses distintos dos teus, outros credos e valores, outro modo de encarar e viver a vida. Ele não difere de você no fundamental e um dia, quem sabe, poderá pensar igual a você. Não é necessariamente um “amigo” e pode ser tratado como um adversário. Mas você está obrigado a conceder a ele o direito de respirar e se manifestar, sob pena de prejudicar a si próprio, incentivando o adversário a vê-lo como inimigo.

Faça você mesmo um teste. Saia do céu dos princípios e desça à vida cotidiana: tolerar é aceitar, admitir e conviver, é consentir ainda que tacitamente, e é também ter capacidade de resistir e suportar. Contém uma clara dimensão de “sacrifício”, mas sua lógica é a da busca de uma vida melhor: de uma vida nutrida por conflitos e antagonismos que são processados e assimilados, que animam e organizam o conjunto.

A tolerância, por sua vez, não encontra espaço para se afirmar sem a aceitação do respeito mútuo, da racionalidade crítica e da honestidade. Os humanos não nascem com tais atributos reflexivos: educam-se para incorporá-los. O cidadão politicamente educado é, em tese, um agente que as sociedades democráticas produzem para fazer com que seja possível uma convivência de melhor qualidade. Ser educado em termos políticos – ser um cidadão – não é evidentemente ser escolarizado em termos formais, ainda que isso ajude bastante: é conhecer regras e procedimentos com que se tomam decisões, é deter e organizar informações, se apropriar de recursos (intelectuais, éticos, morais, técnicos) para a análise e a compreensão crítica do quadro abrangente. Um cidadão educado tem seu ringue no espaço público: é aí que ele luta e busca se realizar. A interação dialógica racional é sua principal ferramenta de trabalho, dado que ele não existe para “esmagar” o próximo – afinal, não é um soldado –, mas para persuadi-lo, convencê-lo e novas verdades e abrir-se, ele próprio, para as verdades do outro.

Tudo isso faz com que o sujeito democrático esteja capacitado para decifrar os enigmas da história: seu tempo, seus ritmos, a dialética passado-presente-futuro, sua sinuosidade, seu caráter sempre aberto e jamais predeterminado. Ele está preparado para compreender que as coisas não acontecem por simples atos de vontade, que há correlações de forças e circunstâncias objetivas, historicamente determinadas, que pesam e precisam ser devidamente consideradas, assim como ações de outros protagonistas. Tem condições de planejar sua ação tendo em vista o conjunto dos agentes e os processos “duros”. Em suma, ele sabe que há uma continuidade histórica que se expressa como vantagem e como problema.

Em um de seus mais belos e vigorosos textos, o Dezoito Brumário, de 1852, Marx observou: a história, ao se fazer, “oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”, na medida em que promove a reprodução da “tradição de todas as gerações mortas”. Objetivando- se como uma sucessão de diferentes gerações, na qual “cada uma delas explora os materiais, os capitais e as forças produtivas que lhes foram transmitidas pelas gerações precedentes”, a história possibilita que cada geração, agindo “em circunstâncias radicalmente transformadas”, dê sequência ao modo de atividade que lhe foi transmitido mas, ao mesmo tempo, modifique as antigas circunstâncias mediante a execução de uma “atividade radicalmente diferente”, para usar frases consagradas na Ideologia Alemã, que o próprio Marx havia escrito com Engels alguns anos antes.

A consciência da continuidade histórica potencial’iza o sujeito democrático. Fornece a ele melhor noção de sua própria força de realização, ajudando-o a compreender melhor aquilo que pode realizar. Ao mesmo tempo, ajuda-o a valorizar a modéstia: o mundo não começou com ele e antes dele muitos fizeram coisas sem as quais nada teria sido possível, nem sequer os atos que singularizam o sujeito em uma dada época.

O desentendimento amplificado sem critério racional produz neblina e fumaça, que confundem, iludem e turvam a visão. Não beneficia a ninguém, mas é mais prejudicial para quem luta por liberdade, democracia, igualdade e justiça social, que são conquistas do esclarecimento. A retórica inflamada e indignada, o anúncio bombástico do apocalipse, a vitimização e o ataque implacável aos que pensam de outro modo bloqueiam a racionalidade crítica. Prestam um desserviço.

Vivemos em uma época paradoxal: brilhante e opaca, participativa e improdutiva, de inovação, progresso, excesso e desperdício, de conquistas obtidas com o empenho de várias gerações e desafios que se acumulam, de sofrimento organizacional, excitação e mal-estar, de vida dinâmica e flutuante. Mas é a nossa época, e teremos de aprender a lidar com ela se quisermos cogitar de transformá-la.

Marco Aurélio Nogueira

Marco Aurélio Nogueira

Cientista político e professor da Universidade Estadual Paulista/Unesp
Marco Aurélio Nogueira

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