Esgotamento de ideias e práticas

O noticiário e a imaginação popular, há meses, observam e debatem o impeachment da presidente da República, sem perceber que, de fato, está acontecendo um impeachment de todo o modelo social, econômico, político e cultural que, há décadas, está sendo incapaz de oferecer a coesão social e o rumo histórico que o Brasil precisa para se fazer uma nação contemporânea com as aspirações de eficiência, justiça, sustentabilidade, liberdade, dentro das características do século XXI. As sociedades democráticas e modernas se organizam visando o avanço com tais objetivos, mas nem sempre suas elites dirigentes conseguem oferecer este rumo.

De tempos em tempos, as elites dirigentes brasileiras se negam ou não conseguem enfrentar este desafio e sofrem impedimentos como aconteceu com o Império, em 1889; com a República Velha, em 1930; o Estado Novo, em 1945; o Golpe sobre a Democracia, em 1964; a Redemocratização, em 1985, e agora o Impeachment, em 2016. Em cada momento, um modelo se esgotou por incompetência, reacionarismo, descrédito, levando o país a esbarrar no seu projeto histórico.

Agora, as lideranças políticas brasileiras das últimas décadas se mostraram conservadoras, não foram capazes de entender o esgotamento do modelo: na economia, não perceberam que, mais uma vez, perdemos sintonia com as mudanças tecnológicas; na sociedade, continuamos apenas na estratégia da assistência; nas finanças públicas, voltamos ao tempo da irresponsabilidade fiscal; e, na política, construímos uma democracia monstruosa, com dezenas de partidos e sem partidos; tolerante com a corrupção, submetida às pressões corporativas e sem entender as novas ferramentas da mídia social que permitem à população prescindir de líderes e agir nas ruas e sobre os parlamentares.

Não perceberam a dimensão da crise e, por apego ao modelo esgotado, ficaram reacionários, não souberam intelectualmente e não quiseram politicamente fazer as reformas estruturais que o Brasil precisa para atender as aspirações de nosso povo e do futuro da Nação.

Ao longo dos últimos 32 anos, aqueles que lutaram para superar o esgotamento da ditadura conduzida pelos militares, não foram capazes de fazer as reformas necessárias para assegurar coesão e rumo ao Brasil. O governo Collor fez algumas mudanças necessárias para nos adaptar aos tempos da globalização, reduzindo o modelo protecionista; o governo Fernando Henrique quebrou o vício inflacionário e criou a Bolsa Escola, depois Família; os governos Lula e Dilma ampliaram os programas de assistência social. Cada um deles fez pequenos gestos como o Fundef, Fundeb, Prouni etc., mas o PT/PSDB/PMDB se comportaram como os abolicionistas: aboliram a escravidão, mas não distribuíram terras aos escravos, nem escolarizaram os filhos deles.

Fizemos a democracia, mas pouco mudamos na sociedade e nada na estrutura social. O PSDB assumiu porque os governos conservadores não fizeram reformas; mas o PSDB também não fez as reformas; o PT venceu pelo esgotamento do PSDB, mas se comportou como um partido igualmente conservador, sem vigor transformador, sem papel reformista, ainda menos revolucionário. E se acomodou tanto no seu conservadorismo que comemora como grandes feitos a ampliação de positivos programas assistenciais, generosos e necessários como se fossem o coroamento de seu papel político para superar o esgotamento.

Embora tenha reduzido problemas, não fez as transformações necessárias para superar o esgotamento por meio de uma revolução que traga a coesão e o rumo que a Nação brasileira precisa para seu futuro. Na verdade, ampliou as manifestações de esgotamento, sobretudo na política. Os dois governos do PT transformaram em prática corrente o aparelhamento do Estado, a compra de parlamentares, o financiamento nababesco de campanhas, a desmoralização dos partidos e, sobretudo, a política do corporativismo como exercício da prática democrática.

O Brasil chega esgotado a este momento histórico. Nas finanças, esgotou-se a velha tradição de financiar gasto público para atender todos os interesses, sem levar em conta os limites de recursos; na política, esgotou-se a democracia voltada para atender os interesses das corporações isoladas, sem interesse nacional comum, e tratando o rumo histórico dividido entre cada eleição, sem perspectiva do longo prazo; esgotou-se o projeto de desenvolvimento baseado na busca de aumentar a produção industrial tradicional graças a subsídios públicos e empréstimos subsidiados visando aumentar o consumo – o tamanho da dívida e dos juros são provas deste esgotamento –; sem tomar medidas necessárias para incluir o Brasil na moderna economia de serviços de bens de alta tecnologia; esgotou-se a possibilidade de aumentar o Estado para atender a voracidade dos partidos por empregos, como também o nível de mordomias e privilégios e o custo da campanha; sobretudo esgotou-se o modelo de desprezo à educação de base para as grandes assas. Este é o centro e a causa principal de todas as manifestações de esgotamento.

O impeachment é o resultado das sucessões de esgotamentos que caracterizam a história do Brasil, sem que os governos seguintes tomassem as medidas necessárias para levar o Brasil adiante, de forma sustentada. O sistema escravocrata se esgotou, por ficar ineficiente economicamente e indigno moralmente, mas não fizemos a Abolição completa; o Império se esgotou, mas não completamos a República, os regimes autoritários se esgotaram, implantamos democracias conservadoras e elegemos governos de esquerda, mas não fizemos as reformas e transformações necessárias para oxigenar a economia, a sociedade, a política e a cultura que o Brasil precisa para seu futuro.

O impeachment de 2016 foi o esgotamento das forças que se consideram de esquerda e que, pelo esgotamento da direita, conseguiram chegar ao governo em 1994 e 1998, e em 2002, 2006, 2010 e 2014, mas não fizeram as transformações das estruturas sociais e econômicas do país. Trouxeram apenas mais sensibilidade social para dar continuidade e ampliar benefícios sociais e assistenciais mais generosos, mas concebidos ou criados anteriormente. Foram governos que fizeram leis que se assemelham à “Lei dos Sexagenários” e “Lei do Ventre Livre”, sem promover a Abolição. Nada revolucionário, apenas mais generosos assistencialmente e menos responsáveis fiscalmente, a ponto de provocar o esgotamento fiscal, com dívida, inflação, recessão, desemprego.

Uma prova desta exaustão é o crescimento dos mais radicais nomes da direita: o saudosismo do regime militar que se espalha na opinião pública atual como nefasta alternativa ao esgotamento, repetindo os erros traumáticos de 1964, não mais como tragédia, mas como farsa.

A longa luta para superar a exaustão da marcha do Brasil para se transformar em uma nação justa, eficiente, soberana, com liderança dentro da realidade do século XXI, exige uma revolução social e econômica que passa por aproveitar cada cérebro brasileiro, assegurando que o filho do mais pobre trabalhador terá escola igual ao filho do mais rico brasileiro. O caminho seguido nos últimos anos não teve esta intenção, nem propósito, foram governos conservadores, feitos por siglas fantasiadas de esquerda, que se mantêm nostálgica e melancolicamente reacionárias, ao ficar olhando para o passado com ideias do passado, sem olhar para o futuro com ideias do futuro, negando o esgotamento do modelo e o próprio esgotamento em suas ideias e práticas.

Cristovam Buarque

Cristovam Buarque

Engenheiro, doutor em Economia, foi Reitor da Universidade de Brasília, governador do Distrito Federal, ministro da Educação, atualmente é Senador da República (PPS-DF)
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