Histórias em quadrinhos despidas

Há quem diga que por trás de cada palavra desferida por Pato Donald e sua turma, nas famosas histórias em quadrinhos Disney, exista uma minuciosa estratégia de doutrinação. Por meio dos balõezinhos, de modo sutil, o estilo de vida norte-americano e os pensamentos conservadores de Walt Disney (1901-1966) seriam incutidos nas mentes juvenis de todo o planeta.

Não são poucos os que afiançam haver algo do gênero. Dentre os escritores e pensadores de tal teoria estão os célebres intelectuais Ariel Dorfman (1942-) e Armand Mattelart (1936-). Juntos, escreveram o livro Para ler o Pato Donald: comunicação de massa e colonialismo, publicado no Brasil pela editora Paz e Terra, com tradução de Álvaro Moya (1930-), escritor e ilustrador considerado um dos maiores peritos em histórias em quadrinhos no Brasil. Trata-se de uma obra de referência para os interessados no assunto.

Relações familiares – Tio Donald, Tio Patinhas, Vovô Donalda, os Sobrinhos, o primo Gastão, o primo Peninha… De fato, não é preciso ser filósofo para perceber que algo de anômalo persiste desenhado nos quadrinhos de Walt Disney. Nas relações de parentesco, não existem pais ou mães. Sequer marido e esposa. No máximo, os casais de Patópolis chegam ao estágio do noivado.

Dorfman e Mattelart sugerem que tal ocorrência é proposital. Seria uma forma de cortar as raízes dos personagens, eliminando os atos biológicos. Sem isso, as criaturas de Disney passariam a aspirar à imortalidade. Além disso, sem o título de pais biológicos, ou mesmo adotivos, os tios não possuem autoridade sólida. Como consequência, podem ser, inclusive, substituídos pelas crianças nas regências das situações. Para completar, sempre está na posse dos sobrinhos de Donald o extraordinário “Manual dos Escoteiros Mirins”, que sempre – sempre mesmo – traz resposta para tudo.

Questão de gênero – Os homens adultos de Patópolis estão sempre cometendo erros infantis. Que o diga o estabanado Pato Donald e o parvo Peninha, primo e coadjuvante de todas as horas. Em meio a tanta infantilidade, não raro as crianças invertem os papéis com os adultos, requerendo a ordem anterior. Para Dorfman e Mattelart, quando tais episódios ocorrem, visam remeter à exigência da estabilidade dominador – dominado.

Um único grupo não corre o risco de ser alertado pelas crianças. Age de forma mais estável e madura. São as mulheres de Patópolis. Entenda-se por mulheres: patas, ratas e todas as demais fêmeas da natureza. Tal aparente superioridade, todavia, cai por terra se feita uma análise à Para ler o pato Donald. Ao grupo feminino resta apenas o poder da sedução. As personagens aceitam o papel doméstico, não se arriscando em terrenos externos. As protagonistas que resolvem ir um pouco além são justamente vilãs Maga Patalógica e Madame Mim.

Terceiro mundo – A relação entre os civilizados cosmopolitas de Patópolis com os “selvagens idiotas” de outras nações – quase sempre remotas – é um dos pontos mais incisivos abordados por Dorfman e Mattelart. É, de fato, facílimo encontrar histórias em quadrinhos nas quais o multimilionário Tio Patinhas e seus sobrinhos espoliados se embrenham mundo afora, em busca de tesouros. São nestas viagens que se observam as características atribuídas pelos estúdios de Walt Disney aos nativos. Quase sempre os habitantes das terras visitadas são completamente dementes. Comportam-se verdadeiramente como crianças, ao contrário dos infantes de Patópolis.

As crianças de Patópolis não se comportam como tais. São tão capacitadas que, não raro, substituem os adultos em algumas atividades. Enquanto isso, os nativos das exóticas ilhas, territórios ou países são perfeitos bons selvagens, aceitando passivamente, e até euforicamente, trocas aviltantes e suas condições de subjugados. Nos quadrinhos os escambos realizados remetem a passagens históricas. Os visitantes cosmopolitas entregam bugigangas manufaturadas ao passo em que recebem matérias-primas de valor, como ouro, por exemplo. Tais negociações, quase sempre, levam os nativos ao delírio de felicidade, pois, na ficção de Disney, eles não usam seus tesouros. O ouro é inutilizável até para reverter à situação medíocre em que vivem.

Dorfman e Mattelart lembram que, obviamente, o roteiro da história não contempla uma explicação – ainda que básica – sobre o porquê da situação precária em que os autóctones se encontram. Há, ainda, o elemento do gigantismo físico dos nativos. Tal característica física serviria para sugerir a aptidão dos “bons selvagens” para trabalhos físicos.

Produção e consumo – Na análise e crítica dos elementos de produção e consumo de manufaturados nas histórias Disney, Dorfman e Mattelart são implacáveis. Observam que não há produtores vivos – humanos ou patos – de produtos manufaturados nas histórias. Porém, mesmo sem ninguém produzir, sempre há algum pato ou animalzinho comprando e vendendo algo em Patópolis. Como é possível?

Partindo do ponto de vista marxista, os autores de Para ler o pato Donald, “metralharam” os estúdios Disney, acusando-o de esconder os trabalhadores, colocando os produtos em cena sem levar em consideração o “suor derramado” pelo produtor. Com isso, é suprimida a luta de classes apontada por Karl Marx (1818-1883). “Os produtos são amorfos, sem suor e esforço, e sem a miséria da classe oprimida”, dizem os autores. Mas existem exceções nas histórias de Disney. Nas estórias ambientadas em espaços internos de fábricas, há apenas um funcionário, que atua sempre como vigia da produção, apenas zelando pelas máquinas que produzem tudo automaticamente.

Se a produção em Patópolis é sinistra, o mesmo não se pode dizer do consumo. Compra-se muito nos quadrinhos dos estúdios de Walt Disney. O ritmo de consumo é frenético e o destino da compra é altamente perecível. Tão alucinante quanto a voracidade dos compradores são os surgimentos de novos inventos e avanços científicos. Graças a eles, novos objetos são lançados no mercado fictício de Patópolis, tornando obsoleto o produto atual. As constantes inovações acabam contribuindo com a curta validade dos produtos presentes nas vidas dos animaizinhos humanizados do criador de Mickey Mouse.

Busca pelo dinheiro – A obsessiva busca de dinheiro, em forma de prestígio ou simplesmente de poder de compra e no desejo de adquirir algum bem, é o tema central da esmagadora maioria das histórias em quadrinhos de Disney, constataram Dorfman e Mattelart.

Em boa parte das situações, o dinheiro é representado pelo ouro, que surge de modo campestre, como se brotasse do chão. Para se ter acesso ao minério, deve-se contar com mapas e heranças. Cabe ao intrépido e dono das ideias – quase sempre o velho Tio Patinhas – abocanhar mais esse lote de tesouro. A ideia o torna o legítimo dono da riqueza. Os vilões, apesar de partirem rumo ao ouro da mesma forma que o mocinho, são retratados como perseguidores ilegítimos, por não possuírem um mapa.

O curioso é que mesmo com tanto tesouro dando “sopa”, nenhum mapa sequer pouse nas mãos dos Irmãos Metralhas. Tais pergaminhos que indicam onde encontrar a riqueza sempre cai nas benditas mãos de Tio Patinhas, observam Dorfman e Mattelart.

Distribuição da riqueza – As leis da propriedade privada em Walt Disney são bastante severas. Ao infringi-la a personagem passa a ser imediatamente classificado como vilão. Ariel Dorfman e Armand Mattelart ressaltam que é o nível de respeito à propriedade privada alheia que serve de parâmetro para medir a honradez da personagem. A partilha da riqueza é uma espécie de tabu em Patópolis, nunca sendo citada.

O surpreendente é que mesmo os vilões que possuem poderes mágicos – ou sinistros – como a Maga Patalógica, não os utilizam para produzir ouro, mas apenas para roubá-lo. Mesmo com suas poções e receitas a granel, nenhum dinheiro é fabricado. Para ou autores de Para ler o pato Donald, a mensagem é clara: “a riqueza não pode ser falsificada, deve vir de origem natural, em que não se intervém, apenas merece”. Os bem-sucedidos mocinhos da Disney possuem seus patrimônios de forma quase que imaculada.

Hierarquia social – Embora sejam bem dotados fisicamente, não é difícil deduzir que os vilões de Patópolis possuam alguma debilidade mental. Estão sempre se comportando infantilmente, ao passo que os pequenos personagens “honrados” dominam a intelectualidade.

Outro elemento que impressiona em Patópolis seria o sonho de qualquer prefeito do mundo. Há na terra dos patos de Disney uma notória abundância de empregos. Paradoxalmente, os irmãos Metralhas e até alguns honrados personagens, como Donald, estão frequentemente, ou quase sempre, desempregados. Todavia, reconhecem que são desajeitados e descuidados. Donald é um perfeito incapaz.

A culpa pela situação dos sem empregos é atribuída a eles próprios. O pobre Donald, em sua situação de passivo participante da ordem da sociedade de Patópolis, nos quadrinhos dos estúdios Disney, chega ao ponto de não se rebelar contra as arbitrariedades de seus patrões, os quais, não raro, pagam o que querem (e o patrão quase sempre é o seu tio Patinhas). Para o pobre pato com roupa de marinheiro, a inutilidade e o papel “parasitário” inerentes o desfalcam da legitimidade necessária para reclamar o que lhe é de direito. Aliás, ao que parece, não há direitos trabalhistas em Patópolis. Aqui, os escritores Dorfman e Mattelart defendem a tese de que tal injusta relação representa a forma que deveria ser copiada pelos trabalhadores na vida real. Mas, no mundo dos quadrinhos de Walt Disney, a polêmica relação entre submissos e dominadores não para aí.

Os motivos para dividir os personagens entre duas categorias são quase sempre naturais. Ser mais belo, rico, ou mesmo mais velho garante legitimidade para coagir, agir paternalisticamente de vez em quando e, por fim, manter-se por cima na hierarquia de Patópolis.

Capacidade – Com base em tais análises é evidente a injustiça social presente entre as personagens do mundo aparentemente mágico de Disney. Entretanto, as discrepâncias da harmônica sociedade de Patópolis são cuidadosamente mascaradas. Ao menos na visão de Dorfman e Mattelart. É como se toda a infelicidade material dos personagens desfavorecidos fosse fruto da incapacidade ou falta de estrela própria. Não por acaso, o destrambelhado Donald está sempre se queixando da própria sorte, porém nunca da ordem vigente nos cenários dos quadrinhos Disney.

O lema capitalista de “igualdade de oportunidades” é perfeitamente desenhado na biografia fictícia de Tio Patinhas. O velho pato era pobre e tornou-se rico. Além do mais, raramente, ou nunca, Patinhas recorre ao tesouro acumulado para obter mais dinheiro, tornando a disputa aparentemente justa.

O mundo ocidental, seguramente, não seria o mesmo sem as caricaturas de Disney. O par de orelhas do camundongo Mickey talvez seja o mais perfeito símbolo da presença norte-americana nos países onde a maior potência do mundo vende os seus bens simbólicos. Diante de tanta penetração – ladeada por um espetacular trabalho publicitário que confunde o mercantilismo do merchandising de Disney com a magia de um mundo perfeito –, justifica- se a sensação causada por obras como Para ler o Pato Donald nos corredores dos cursos de comunicação social.

Por: Tiago Eloy Zaidan

Tiago Eloy Zaidan

Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco, coautor do livro Mídia, movimentos sociais e direitos humanos (Organizado por Marco Mondaini, UFPE, 2013) e professor do curso de Comunicação Social na Faculdade Joaquim Nabuco e na Escola Superior de Marketing/Fama, todas no Recife-PE.

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