Maldito mundo mediterrâneo

Fernand Braudel (1902-1985), no clássico O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na época de Filipe II, imprimiu historiografia mundial. Ensinou-nos a formação lenta e contraditória do sistema moderno europeu e suas instituições duradouras que permeiam a Europa que temos hoje. Braudel historiou as margens do norte do Mar Mediterrâneo, pleno de curvas, baías e penínsulas, em movimento de transformação, na forja de novas sociedades. Ali nasceu o Estado moderno, ponderado pela força das nascentes sociedades nacionais.

O sistema mediterrâneo moderno, no tempo de Filipe II, incluía o continente africano. Começava pelo norte da África, plasmada de linhas retas e contornos geográficos calmos quando comparadas com o norte do Mediterrâneo. O mar foi liga de troca e de encontros de valores novos para europeus e africanos, nas margens do grande mar. Os contatos eram fluentes embora os regimes políticos e as formas de viver fossem diferentes.

Havia, no entanto, um Mediterrâneo único, de trocas e relações, nem sempre de compreensão, até mesmo com incidências de guerras e conflitos. A Europa deve em parte o seu cosmopolitismo aos contatos do mar interior com a África e o Oriente. Esse grande mercado de bens e de ideias permitiu que a África do norte e a Europa do sul, onde hoje está a Líbia e a Tunísia, participassem da longa história de contatos e transferências. Mas elas voltaram, nos últimos tempos, com força de tragédia e de maldição.

Vivemos, nestes dias, quadra difícil para as relações das duas partes do Mediterrâneo. O mar foi cortado ao meio, separando dois mundos. A Europa não quer em seu território os migrantes do mar que sempre estiveram em contato com os dois lados ribeirinhos. Foi esse o impacto da tragédia humanitária ocorrida recentemente.

Um cemitério foi criado no Mediterrâneo, nas palavras de Francisco, o bispo de Roma. Achacada e humilhada, no dia a dia, de suas sociedades originárias, essa gente em transe migratório vem sendo cooptada. Homens e mulheres entram, sem pensar, em embarcações precárias e clandestinas geridas por falsos capitães. Foi isso que restou da Primavera Árabe, agregada às graves crises crescentes no Oriente Médio e na África Subsaariana.

Diante desses fatos mais recentes, particularmente as mortes no maldito mundo criado no Mediterrâneo, temos saudades de Braudel. O grande mercado de bens e ideias foi jogado às profundezas do mar. Maldito o balanço da Declaração de Barcelona, aprovada exatamente há 20 anos, voltada para o desenvolvimento dos países ribeirinhos no contexto da Parceria Euro-Mediterrânea, também conhecida como a União para o Mediterrâneo.

O medo europeu de uma migração em massa de africanos e outros para a Europa foi garantida por três grandes movimentos, no campo da política e segurança, na economia e finanças, bem como na área da sociedade e da cultura. Lá estava, na Declaração de 1995, a ordem da “proteção civil contra catástrofes de origem natural e humana”.

Uma Europa menos solidária é aquela que vem demonstrando diferentes formas de declínio. Inicia-se com o pífio PIB, passando pelo desemprego juvenil, ao encolhimento de seu poder global. As lideranças políticas fracassaram em criar ciclos de transformação da própria União Europeia. Estancou-se a animação de duas décadas atrás, após a chamada ampliação da Europa, com novos sócios. O terrorismo, nos últimos tempos, é o lead. A ausência da proteção dos fracos, direito humano, está no chão da nau.

Na formação do novo Mediterrâneo, conformar-se com o mundo maldito dos imigrantes do mar não poderia ser ato natural. Os títulos das ações recentes da União Europeia contra os potenciais imigrantes, todas agressivas e devastadoras, explicam as novas guerras. A última, a Operação Triton, centrada nas regras da prisão e da morte, fala por si. Perdeu-se até o grande negociador do fluxo migratório organizado, de antes, dirigido por Muammar al-Gaddafi, relativamente suportável para os dois lados do Mediterrâneo. São hoje quase 90% os migrantes que partem da Líbia, destroçada pela Primavera Árabe. Os dados são terríveis: 4.500 mortos nos últimos 15 meses nas águas frias do maldito Mediterrâneo.

Precisamos de outro Filipe II e de outro Mediterrâneo, voltado para a construção dos conceitos da solidariedade, do direito de ir e vir, do arrependimento da tragédia que se impetra. Uma Europa sem lideranças confiáveis não terá condições de resolver o novo mundo mediterrâneo.

Por: José Flávio Sombra Saraiva

José Flávio Sombra Saraiva

José Flávio Sombra Saraiva

Professor titular de Relações Internacionais da UnB.
José Flávio Sombra Saraiva

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