Manifesto Comunista versus Manifesto Capitalista

O comunismo e o capitalismo são dois sistemas políticos sabidamente antípodas, que defendem princípios filosóficos de conciliação extremamente difícil ou, com uma visão pessimista, até impossível.

Segundo o Dicionário Oxford de Filosofia, fonte de grande credibilidade, o comunismo é um sistema socioeconômico baseado na posse e produção de bens da comunidade e no autogoverno coletivo. A palavra de ordem “de cada um de acordo com suas capacidades, a cada um de acordo com suas necessidades” descreve sinteticamente a extinção dos mecanismos de troca do mercado.

No Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels afirmaram, em 1848, que o comunismo é a abolição positiva da propriedade privada, da alienação humana e, portanto, a verdadeira apropriação da natureza humana através do homem e para ele. Nessa visão, o comunismo é, portanto, o retorno do próprio homem como um ser social, isto é, realmente humano; um retorno completo e consciente que assimila toda a riqueza do desenvolvimento da humanidade.

Por outro lado, conforme o mesmo Dicionário Oxford de Filosofia, o capitalismo consiste no modo de organização socioeconômica em que uma classe de empresários e empresas disponibilizam o capital com o qual essas organizações produzem bens e serviços e empregam trabalhadores. Em troca, o capitalista tira lucros dos bens produzidos. O capitalismo frequentemente é visto como a encarnação da economia de mercado, podendo assim resultar na distribuição otimizada de recursos escassos, com um consequente benefício para todos. Esse otimismo é contestado indicando-se as possibilidades de exploração inerentes ao sistema.

Ressalte-se que, em oposição ao Manifesto do Partido Comunista, algumas publicações foram escritas. Entre elas destaca-se, inicialmente, a obra pioneira de Kelso e Adler (1961), primitivamente publicada em 1958 com o título The Capitalist Manifesto. O Manifesto Capitalista, primeiro escrito para se opor frontalmente ao manifesto de Marx e Engels, foi “dirigido ao povo norte-americano e a todos os povos do mundo para encontrar na ordem estabelecida as razões de sua renovação e as vantagens da melhor sociedade que pode ser desenvolvida”.

Um Novo Manifesto Capitalista (HAQUE, 2012), que parte da obra de Adam Smith, A riqueza das nações, é analisado e discutido neste trabalho. Para Haque, “Smith sintetizou detalhadamente e com impiedosa lógica, sua nova visão de prosperidade. Embora muitos livros similares tenham se seguido, a obra-prima de Smith continua sendo o manifesto capitalista original, o documento fundador da prosperidade da era industrial”.

Nesse panorama de divergências, o presente trabalho se propõe a analisar os pontos defendidos por cada um dos lados, expressos no Manifesto do Partido Comunista e no Manifesto Capitalista.

Alicerces do Manifesto Comunista

Este histórico documento foi escrito por Marx e Engels entre dezembro de 1847 e janeiro de 1848, tendo sido publicado, pela primeira vez em Londres, em fevereiro de 1848. O documento abalou o mundo e lançou um chamamento aos trabalhadores, conscientizando-os do quadro de desigualdades e injustiças sociais da época.

Esse Manifesto reiterava que o comunismo já era reconhecido como força por todas as potências da Europa e que já era tempo de os comunistas exporem, à face do mundo inteiro, seu modo de ver, seus fins e suas tendências, opondo um Manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo.

As vigas mestras desse Manifesto concentram-se, basicamente, na luta de classes, no crescimento da indústria, nos mercados, na propriedade, na exploração do homem pelo homem, na acumulação da riqueza, no trabalho assalariado. Nele são sugeridas diferentes medidas para transformar radicalmente todo o modo de produção. São elas: 1 – Expropriação da propriedade latifundiária e emprego da renda da terra em proveito do Estado; 2 – Imposto fortemente progressivo; 3 – Abolição do direito de herança; 4 – Confiscação da propriedade de todos os emigrados e sediciosos; 5 – Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco nacional com capital do Estado e com o monopólio exclusivo; 6 – Centralização, nas mãos do Estado, de todos os meios de transporte; 7 – Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, arroteamento das terras incultas e melhoramento das terras cultivadas, segundo um plano geral; 8 – Trabalho obrigatório para todos, organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura; 9 – Combinação do trabalho agrícola e industrial, medidas tendentes a fazer desaparecer gradualmente a distinção entre a cidade e o campo; 10 – Educação pública e gratuita de todas as crianças, abolição do trabalho das crianças nas fábricas.

Os diferentes tipos de socialismo receberam apoio no Manifesto do Partido Comunista como os sistemas socialistas e comunistas da Europa, os de Saint-Simon, Fourier e Owen.

Em resumo, graças a este documento, os comunistas apoiaram em toda parte qualquer movimento revolucionário contra o estado de coisas social e político existente. Em todos esses movimentos, eles punham, em primeiro lugar, como foco principal, a questão da propriedade, qualquer que seja a forma de que esta se revista. Finalmente, os comunistas deviam trabalhar pela união e entendimento dos partidos democráticos de todos os países.

Bases do Manifesto Capitalista

Em oposição ao Manifesto Comunista, foram apresentados diferentes Manifestos Capitalistas, visando mostrar as vantagens do sistema antípoda ao defendido por Marx e Engels. Os alicerces desses Manifestos são definidos e aceitos pela comunidade empresarial.

O mais importante deles apoia-se em uma publicação recente, constante da obra de Umair Haque, Novo Manifesto Capitalista: como construir a empresa do século XXI (New Capitalist Manifesto: building a disruptively better business), publicado em 2011, pela Harvard Business Review Press, que se alicerça na obra de A riqueza das nações, publicada em 1776.

Na obra de Haque, é ressaltada a relevância da otimização das organizações empresariais, com vistas ao grande objetivo de se chegar ao “capitalismo construtivo”. De uma forma sucinta, o objetivo do capitalista do século XXI, basicamente, é “repensar o capital”, ou seja, construir organizações que sejam menos máquinas e mais redes vivas dos muitos diferentes tipos de capital, seja ele o capital natural, humano, social ou criativo.

Os “capitalistas construtivos” da era industrial, segundo Haque, buscam alcançar eficiência operacional, agilidade estratégica, eficácia operacional e produtividade da mão de obra e do capital. Os capitalistas do século XXI maximizam socioeficiência, socioprodutividade, agilidade gerencial, capacidade evolutiva e socioeficácia.

Para atingir tais objetivos, segundo Haque, deve ser seguida uma trilha fundamentada em cinco passos, visando dominar cinco novas fontes de vantagem construtiva e a nova pedra angular sobre a qual cada uma delas repousa, o “capitalismo construtivo” e, então, finalmente, aprender a tirar delas seu efeito máximo.

Conforme defende Haque, o primeiro passo para se tornar um capitalista construtivo é aprender a alcançar uma vantagem de perdas, com base em três metas suspeitosamente benevolentes: usar 100% de energia renovável, alcançar desperdício zero e vender apenas produtos que beneficiem o meio ambiente.

O segundo passo por ele defendido é que, para se tornar um capitalista construtivo é dominar a responsividade, ou seja, implantar a rapidez das respostas nas decisões, a fim de aumentar a velocidade, a precisão e a agilidade de um ciclo de valor. A empresa deve tomar mais decisões – e decisões melhores – de forma mais rápida do que as demais.

Em continuação, o terceiro passo é dominar a resiliência, a resistência às mudanças, obtendo uma vantagem evolutiva. A resiliência acontece com o estabelecimento de uma filosofia que enfatiza os princípios primordiais e fundamentais da criação de valor, e não com o planejamento de uma estratégia focalizada na extração de valor.

O quarto passo é dotar a empresa de criatividade, passando da proteção de um mercado à sua complementação. Inovar, nesse caso, é não aceitar os limites do possível, é criar novidades lucrativas. Trata-se de um esforço para empurrar a equidade para além de limites já aceitos, aperfeiçoando mercados imperfeitos, em vez de meramente protegê-los, criando novos mercados.

O último passo, o quinto da lista de Haque, é passar do lema desambicioso de “produzir bens” para “obter bens e serviços melhores”. Tal procedimento irá resultar em um impacto positivo, tangível, significativo e duradouro.

Conforme o Manifesto Capitalista, de Haque, o ponto culminante do capitalismo é o crescimento e, uma vez tendo escalado até o ápice da inovação institucional, o passo final para se tornar um capitalista do século XXI é talhar um novo ponto culminante. As novas empresas não serão apenas mais rápidas, mais sólidas e com custos mais baixos. Devem ser, principalmente, mais inteligentes.

Conjecturas e reflexões

Um estudo comparativo entre os Manifesto Comunista e o Manifesto Capitalista é dificultado, inicialmente, por aspectos cronológicos: o primeiro data dos idos de 1848; o segundo foi publicado em 2001.

No Manifesto do Partido Comunista, são reconhecidas as limitações que poderiam acontecer com o passar dos anos, considerando o envelhecimento do conteúdo do documento. Na opinião dos críticos da obra de Marx e Engels, embora as circunstâncias tenham mudado muito nos últimos anos, os princípios gerais nela expostos conservam ainda hoje, no seu conjunto, toda a sua exatidão. Alguns pontos deveriam ser, no entanto, retocados.

O próprio Manifesto Comunista reconhece que a aplicação dos seus princípios dependerá sempre e em toda a parte das circunstâncias históricas existentes. Dados os imensos progressos da grande indústria nos últimos anos e os progressos paralelos levados a cabo pela classe operária na sua organização em partido, dadas as experiências práticas, os defensores das ideias do Manifesto admitem que esse documento “envelheceu em alguns dos seus pontos”.

Na apresentação do Novo Manifesto Capitalista, Haque diz que seu livro tem como meta ajudar o leitor “a se tornar um líder do capitalismo do século XXI, um mestre pedreiro de novas pedras angulares que, quando lançadas no solo econômico dos dias de hoje, servirão como fundamentos fortes, compactos e duradouros.

Fica claro que o Manifesto de Haque reconhece que o capitalismo precisa ser revisto, devendo ser substituído por uma forma melhor, que lhe permita ser “inteligente, bonito, justo e virtuoso”.

Houve, portanto, o reconhecimento, como ocorreu na obra de Marx e Engels, de que há necessidade de um aperfeiçoamento contínuo dos conteúdos dos dois manifestos.

Observe-se, por outro lado que, no Manifesto do Partido Comunista, há uma preocupação basilar com a redução das desigualdades sociais, enquanto o Manifesto Capitalista se concentra na otimização dos processos produtivos e, principalmente, dos lucros. Os valores, portanto, entre o comunismo e o capitalismo, são frontalmente opostos, respectivamente, o igualitarismo e o homem, a riqueza material e o dinheiro.

Enfim, restam muitas dúvidas para os comunistas: se o capitalismo é uma fase transitória do processo político; se as formas dos sistemas igualitaristas podem existir paralelamente com o capitalismo; qual a natureza das sociedades pós-capitalistas e quais os caminhos que essas sociedades escolherão para realizar o socialismo ou o comunismo?

O futuro é incerto, mas os comunistas continuam a busca pela redução das desigualdades sociais. Eles perderam muitas batalhas, sobretudo onde “o comunismo não deu certo”, mas a culpa não cabe à filosofia marxista, e sim ao homem, um ser intrinsecamente mau. Maquiavel tinha razão.

Por: Gastão Rúbio de Sá Weyne


 

 

Referências
BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

BOTTOMORE, Tom (Edit.). Dicionário do Pensamento Marxista. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

HAQUE, Umair. Novo Manifesto Capitalista: como construir a empresa do século XXI. Trad. de Christiane do Brito. Porto Alegre: Bookman, 2012.

KELSO, Luis O.; ADLER, Mortimer J. Manifiesto Capitalista. Buenos Aires: Kraft, 1961.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Bauru-SP: Edipro, 1998.

 

Gastão Rúbio de Sá Weyne

Gastão Rúbio de Sá Weyne

Professor Associado do Departamento de Engenharia Química da Escola Politécnica da USP (aposentado), tenente-coronel reformado do Exército; advogado e doutor em Direito, na área de Filosofia do Direito (USP).
Gastão Rúbio de Sá Weyne

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