Novo tempo nas Américas

A reabertura das embaixadas de Cuba, em Washington, e a dos Estados Unidos, em Havana, no dia 20 de julho, sela uma mudança de longo alcance na geopolítica hemisférica e, mais ainda, coloca em novo patamar a discussão sobre a hegemonia dos Estados Unidos no continente. Para a diplomacia brasileira, em especial, o novo desenho das relações de poder na região abrange outros elementos. A 46ª Cúpula do Mercosul, ocorrida em Brasília, no dia 17 de julho, marco do encerramento de mais uma presidência semestral do Brasil, selou a adesão da Bolívia ao bloco, que passa a aglutinar 70% do PIB sul-americano.

Entre outras implicações, o que os dois movimentos sinalizam é a emergência de uma nova configuração das relações de poder no contexto interamericano. A ordem legada pela 2ª Guerra Mundial, tendo por base a hegemonia dos EUA, cede lugar a um cenário no qual se consolida, ao sul do Rio Grande, uma articulação capaz de se contrapor à hegemonia estabelecida por Washington, em 1945.

O exemplo mais completo dessa transmutação está exatamente nas cerimônias simultâneas do histórico dia 20, em Washington e Havana: foi sob o impulso de um movimento no âmbito latino-americano para reinserir Cuba que o governo de Barack Obama se dispôs a quebrar o tabu de meio século. Arriscado a ficar sozinho no antigo “quintal”, e já desobrigado de calcular os custos políticos de uma reeleição, o homem da Casa Branca faz agora opções vinculadas ao legado que pretende deixar após oito anos no comando da superpotência incontestável dessa primeira metade de século.

A ironia histórica é que todo esse processo deslanche justamente no momento em que um dos seus alicerces dá sinal de falência estrutural. A crise política no Brasil, estendida ao Legislativo e às relações deste com o Executivo, irradia algo mais que preocupações técnicas.

Relembrando – Foi na Bahia que se reuniu a primeira cúpula de âmbito latino-americano e caribenho, em 2008. Desse processo, que resultou na construção da Celac, desdobrou-se a reabilitação de Cuba no sistema interamericano, começando pela revogação da resolução que excluía a ilha apenas por ter optado pelo socialismo.

Desde então, o caminho seguido no sistema hemisférico foi o da distensão progressiva, a despeito de fricções pontuais, como as que se produzem entre Washington e Caracas. Nesse quadro, a instabilidade no Brasil transforma o solo aplainado em areia movediça.

Ao longo dos quase seis anos de governo de Barack Obama, a diplomacia brasileira fez o papel de pivô no processo de reaproximação entre Washington e Havana. Não que tenha cabido ao nosso país uma função determinante, mas foi o processo de integração latino-americana, inaugurado por Lula na Cúpula do Sauípe, em 2008, que, de certa maneira, forçou (ou favoreceu) a reorientação do Departamento de Estado estadunidense.

Mais de um observador do cenário regional aponta, como momento de virada na questão, o recado levado a Obama pela presidente Dilma, em 2012, às vésperas da Cúpula das Américas daquele ano, em Cartagena (Colômbia): que seria o último encontro hemisférico sem a presença de Cuba – como, de fato, terminou por ser.

Previsão do tempo – As incertezas em Brasília preocupam discretamente alguns dos parceiros do país, em particular aqueles que investem na diplomacia presidencial para impulsionar programas de cooperação e integração paralisados pelas contingências. Entre outras contingências, quem aposta em visitas presidenciais para o segundo semestre anda com as barbas de molho. Mais ainda com as notícias mais recentes em torno do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A perspectiva de uma débâcle no sistema político, como sugere a crise entre Executivo e Legislativo, sinaliza um segundo semestre tenso em toda a vizinhança.

Por: Silvio Queiroz

Silvio Queiroz

Jornalista, comentarista do Correio Braziliense

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