O caminho para o labirinto

Não é exagero afirmar que o Brasil atravessa a mais grave crise de sua história recente. Tão grave quanto complexa e, por isso, difícil de explicar. Analistas se debatem em torno de suas causas e significado: para uns, foi a fragilidade política do governo Dilma – a debilidade na articulação e na coordenação; para outros, efeitos da crise econômica, mãe das agruras porque passa o governo.

O fato é que ela, a crise mais geral, atinge uma ampla parcela do espectro político: setores que não estão implicados e acumpliciados com escândalos, encontram-se temerosos ou confusos, sem saber como agir e por onde escapar deste mau momento. Enquanto isso, as condições econômicas se deterioram ainda um tanto mais e, por decorrência, comprometem o bem-estar social, num terrível ciclo vicioso que apenas aprofunda a aversão e a crítica à política.

Entre ansiosos e perplexos, pergunta-se aonde a crise pode chegar; qual seria a saída? Mas, o que identifica uma crise é justamente esta imprevisibilidade; a incapacidade de prever o futuro, encontrar saídas. Neste momento, o diagnóstico é mais tangível que o tatear nas nuvens do futuro em busca de um prognóstico que ainda não se afigura – porque a crise é grave e ainda haverá muito o que sangrar.
Em todo caso, entender as raízes do drama, talvez, seja o primeiro passo para superá-lo. Em primeiro lugar, é preciso considerar que as causas da crise não são novas, muito menos surpreendentes. Há uma série de elementos que se desenvolveram ao longo do tempo; em relação a vários deles, houve alertas; apontou-se problemas e incongruências sistêmicas; desajustes e necessidade de revisão de processos; a questão da “qualidade da democracia”. Mas, a sociedade – e mesmo parte dos analistas – deram de ombros. O bom momento foi mesmo péssimo conselheiro.

É verdade que, desde a redemocratização, o Brasil evoluiu muito e houve algum motivo para o otimismo. De algum modo – e cada um a seu modo –, os sucessivos governos cumpriram agendas importantes: José Sarney (1985-1990) colaborou com a difícil travessia entre o regime autoritário e a democracia; Fernando Collor (1990-1992), entre trancos e barrancos e sem qualquer habilidade, contribuiu para a abertura e a modernização econômica do país; Itamar Franco (1992-1994) iniciou o processo de controle da inflação, que castigava o país, sobretudo, os mais pobres; Fernando Henrique (1995-2002) o consolidou, entregando a seu sucessor um país mais estável e moderno. Lula (2003-2010) pôde, enfim, iniciar um importante processo de inclusão social.

É claro que todos estes governantes tiveram defeitos, e seus governos apresentaram, evidentemente, problemas; em maior ou menor grau, desgastaram-se e o balanço definitivo de seus legados poderá ser feito com o tempo, com o distanciamento histórico que permite a perspectiva. E é evidente que Lula, em especial, deve explicações. Mas, o dado concreto é que, em que pesem os reparos, esses governos e governantes cumpriram suas agenda e deram, no conjunto, uma agenda para o país. Compreenderam o momento histórico e seus desafios; promoveram, ao fim e ao cabo, algum tipo de mudança que colaborou para o aperfeiçoamento do país.

Isto, infelizmente, não se deu e não tem se dado com Dilma Rousseff. A atual presidente parece ter-se perdido numa área de nevoeiro ideológico; foi pouco pragmática no campo da economia e da gestão, ao mesmo tempo em que foi condescendente em relação às mazelas do sistema político. Buscou uma nova matriz de desenvolvimento econômico que desorganizou o governo e a economia, ao mesmo tempo em que se resignou diante do status quo do velho presidencialismo de coalizão que, já em seu primeiro mandato, dava sinais de esgotamento.

É possível que a presidente tenha ela própria acreditado na embromação do marketing que a elegeu: que seu perfil era técnico e competente (sic) e que a técnica que, supostamente, expressava bastaria para os seus propósitos, podendo prescindir da política. Deu certo enquanto havia recursos; funcionou na opulência do bom momento. Mas, já se via, não teria fôlego.

E não teve. Em abril de 2013, quando Dilma ostentava mais de 60% de popularidade – sequer havia manifestações, como as de junho –, os problemas já eram mais ou menos evidentes. Na ocasião, publiquei um longo artigo questionando a qualidade e os efeitos da discutível liderança política de Dilma. Intuía, embora preferisse estar errado, que o processo tinha qualidade duvidosa.

A presidente fazia uma avaliação ufanista de seu governo e se portava de um modo arrogante em relação à crítica. Quanto à política, seu distanciamento era imperial. Parecia não perceber que tudo tendia ao esgotamento: o modelo econômico inaugurado pela crise de 2008, baseado no consumo, mostrava os primeiros sinais de sua complicada sustentabilidade; assim como o “presidencialismo de coalizão longa” (digamos assim) mostrava que a governabilidade baseada unicamente na distribuição de recursos sempre crescentes e, portanto, exauríveis, tendia ao colapso – a assim chamada “faxina”, de 2011, que Dilma supostamente teria promovido, já seria expressão da incapacidade de continuar controlando o Parlamento, exclusivamente, pela via de seu arrendamento. Faltava programa, rumo, debate, persuasão; política.
Não se sabia – embora fosse de se supor – que, paralelamente, a corrupção e os esquemas financeiros – em grande medida voltados ao financiamento de campanhas – corroíam o governo e todo o sistema político. De todo modo, o governo abriu mão da política, da reforma, do aperfeiçoamento institucional como se estas fossem as condições para que Dilma governasse com liberdade, sem pressões a não ser a dos críticos isolados, imediatamente classificados como “oposição”, “pessimistas” e “derrotistas”.

Claro que a culpa não é exclusiva de Dilma – embora esteja condenada a carregar essa carga, qualquer que seja o desfecho desta crise que mediocriza seu governo e avilta seu mandato. As condições estruturais para a crise precedem Dilma: o patrimonialismo, o fisiologismo, a voracidade das “bases aliadas”, o esgotamento da logística e da infraestrutura do país não nasceram ontem. Contudo, será difícil negar que superar estas mazelas era seu desafio histórico e Dilma não o percebeu ou não quis perceber. Não estava à altura (será que a contribuição institucional que Dilma dará ao país será, ao final, seu próprio sacrifício?).

Mas, independente das causas que se levante, o fato é que esta crise se torna ainda mais grave porque o déficit de liderança política do país é pior que os déficits fiscais do governo; não há aí, no curto prazo, hipótese de se fazer superávits, mesmo que primários.

Mais uma vez: não se trata apenas de Dilma e nem sua limitada liderança é causa, se não efeito da crise. Ao que tudo indica, até mesmo a decantada liderança do ex-presidente Lula é decrescente; Lula parece viver seu ocaso – e até seus amigos apontam seu isolamento; basta ler Ricardo Kotscho. No PT, há um deserto, após o “mensalão” ter salgado aquele seu solo. No PMDB, há muitos anos não se pode falar em liderança política, mas tão somente na acomodação de interesses fragmentados. Nos demais partidos da base – ou do que foi a base –, após o acidente que vitimou Eduardo Campos, há um vazio fúnebre.

Na oposição, não há grande diferença. O PSDB se divide e confunde o passado de sua história com um oportunismo caolho com que tenta vislumbrar o poder no futuro – que sequer pode ser seu. Até aqui, não há projeto, não há propostas, não há alternativa para além do jogo que fazem os três principais caciques tucanos.

Tem-se dito que uma crise como esta requer instituições fortes e eficientes; os mais otimistas afirmam que as instituições nacionais funcionam em sua plenitude, fortes e eficientes. No entanto, parece que se insiste na mesma e velha razão nefelibata: a “força” das instituições só pode residir na lei, no direito e na adesão profunda a valores; logo, essa “força” é sempre relativa e não se pode ir além da lei ou dos próprios limites institucionais, e nem se alimentar de rancores circunstanciais, como muitos parecem acreditar.

Ademais, nem só de Justiça, Polícia Federal e Ministério Público (com ou sem justiceiros) se faz um país. Governo, Congresso, partidos e associações da sociedade civil também compõem as tais instituições e nesse campo há um reconhecido vazio: o sistema político carece de credibilidade, há uma séria crise de representação – não apenas no Brasil, diga-se. A confusão é tal que até mesmo Renan Calheiros e Eduardo Cunha se transvestem de vestais institucionais e são assimilados como heróis apenas pelo fato de dificultarem a vida de Dilma, de seu governo e do PT. Sejamos mais críticos e radicais!

Mesmo em países de grande tradição institucional, como os Estados Unidos, de tempos em tempos a liderança se faz necessária para que se aperfeiçoem as instituições, dando-lhe atualidade e eficiência adaptativa – basta notar os papéis que desempenharam Lincoln, Wilson, Roosevelt ou Reagan.

A uma crise de verdade – aquela em que se perde a perspectiva e não se sabe exatamente “aonde vai dar” – somente se supera com lideranças políticas capazes de construir acordos, consensos, saídas. Não se trata, é claro, de conciliar interesses que, de resto, não são mais conciliáveis; muito menos esconder o lixo sob tapetes tecidos pelos acordos. Mas, é necessário estabelecer processos e vislumbrar o futuro com desprendimento e sem oportunismos pessoais ou partidários. Nem mesmo na mitologia grega, a superação se deu por mágica: o povo de Atenas precisou da coragem de Teseu e da inteligência de Ariadne, para que o herói matasse o Minotauro e encontrasse o caminho de volta, no Labirinto. O Brasil vive seu Labirinto; sem Teseu, nem Ariadne para ajudar-nos.

Carlos Melo

Carlos Melo

Carlos Melo

Cientista político e professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa).
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