O desenho do nosso futuro

Os economistas costumam usar curvas para apresentar esquematicamente como estão prevendo o desenvolvimento futuro da economia.

Logo no início dos desdobramentos da crise de 2008, Lula desenvolveu a Teoria da Marola, adotada por Dilma. Para os pensadores petistas e alguns segmentos nacional-desenvolvimentistas, a crise do mundo capitalista seria uma janela de oportunidades para os países emergentes. Sendo assim, nosso crescimento não só seria continuidade, como teria seu ritmo acelerado. A curva de Lula seria uma reta ascendente.

Bem, deu no que deu a insistência em ignorar os sinais de retração da economia mundial, acreditando que o mercado interno sustentaria o ritmo de crescimento, a permanente expansão do gasto público e o estímulo ao consumo. Essa era a equação do voto. Ela deu certo. O problema agora são os custos…

Anos depois, Dilma, reeleita, falou de uma queda seguida de uma rápida retomada. Seria alguma coisa parecida com o V.O., que já está visto como superado.

Economistas mais centrados falam em um processo em U: queda, um período de tempo num piso de crescimento baixo e uma retomada lenta mais à frente. Enfim, um U com a base alongada e a perna direita inclinada para a direita. Todo o problema está em dimensionar quanto tempo permaneceremos nessa base de crescimento recessivo ou medíocre e quanto tempo iremos levar para chegarmos a um nível mínimo e sustentável de crescimento.

Assumindo que esta década, iniciada em 2008, já está perdida, a dúvida é se a década seguinte também estará perdida, somando ao piso recessivo ou medíocre um período lento de retomada para patamares razoáveis.

Os números dão a dimensão do que estava em jogo e demonstram como foi pensado o Estado que não deu certo:

  • entre 2000 e 2010, a arrecadação tributária cresceu 264,49%. No mesmo período, o PIB cresceu 212,32%, num claro avanço real sobre a renda das famílias;
  • entre 2005 e 2015, os gastos públicos foram da ordem de R$ 13 trilhões;

A carga tributária foi de 33,19%, em 2004, para 35,42%, em 2014.

Aparentemente, a solução era bem simples: bastava usar o Estado como alavanca. Parecia que era certo. Afinal, a arrecadação tributária, ano sobre ano, batia recordes. A impressão era de um ciclo retroalimentado no qual o Estado gastava mais e, gastando mais, arrecadava mais, para poder gastar mais ainda.

A leitura ideológica do Estado, que tudo pode, esqueceu de combinar com o mundo real.

Apesar do aumento da base tributária e de alíquotas nos impostos, apesar da limitação de benefícios previdenciários e trabalhistas, calculado junho de 2015 sobre junho de 2014, há uma queda na arrecadação de 2,44%. Acabou a “era dos recordes”.

O valor real da folha de pagamento das empresas caiu 9,7%, examinando-se junho 2015 sobre junho 2014, 12ª queda consecutiva, conforme dados do Pimes/IBGE. Este conceito é um importante elemento de referência para avaliar a massa salarial, lembrando que estamos no fim de um processo de anos em que essa massa teve crescimento real, criando uma boa zona de conforto para os trabalhadores. Hoje, caminhamos na direção contrária. A queda de 5,8% do emprego na indústria, comparando 2015/2014, é outro dado preocupante.

Não bastassem esses números que apontam para uma evidente e forte queda dos investimentos públicos, a poupança, que tem sido utilizada desde sua criação na época do Império comofonte barata de recursos para investimento, vem apresentando forte evasão devido a sua taxa de remuneração negativa. Certamente, a poupança nunca foi uma preocupação real dos governos petistas, cujo foco maior é o estímulo ao consumo. Em termos de investimentos estrangeiros, enfrentamos um ciclo de baixa avaliação das agências de risco que somado ao quase certo aumento da taxa de juros nos Estados Unidos acabam formando um quadro que certamente irá complicar qualquer possibilidade de retomada mais rápida da economia.

Definitivamente, não estamos numa boa quadra. Mas se a economia não ajuda, a política ajuda menos ainda.

A estrutura de poder balança e o que começou como um movimento no sentido de jogar luz sobre os esquemas patrimonialistas de financiamento de dirigentes e do próprio PT avança rapidamente rumo à base aliada e pode chegar aos partidos de oposição. A República e suas instituições – Congresso, TCU – estão sendo postas em cheque. Assessoriamente, a crise que envolve questões republicanas também é uma crise de governo e governança.

A soma da crise econômica com a crise política que joga na lona governo e governabilidade não deve levar apenas ao descrédito das instituições, perfeitamente verificável se olharmos para a queda de mais de 30% na inscrição de eleitores jovens – 16 e 17 anos – comparando 2014 a 2010.

Neste momento, a crise política alimenta a crise econômica ao colocar o governo em estado de quase inação, ao solapar a governabilidade. O maior problema desse processo é o alongamento do período em que ficaremos no fundo do poço e numa retomada mais lenta. Isso nos coloca de frente para a possibilidade de perdermos uma nova década, para além de 2018.

Constata-se também que a forma como a oposição joga, ao atirar mais lenha na crise sob o argumento que cabe ao governo resolver os problemas que ele criou e se recusando a cooperar com as medidas de ajuste fiscal, constitui algo extremamente perigoso, pois logo ela, a oposição, poderá estar fadada a provar do próprio veneno.

O que temos pela frente é uma retomada, difícil e complicada, pois dependerá de medidas de reformas como a tributária e a previdenciária, que vêm sendo proteladas há décadas. Os diversos graus de relação entre empresas e governo, as estruturas de governança e controles internos e externos terão que ser revistos. A estrutura patrimonialista, reforçada pelo lulopetismo, comprometeu a credibilidade das instituições republicanas. Isto é sério. É muito sério. Está muito longe de se tratar apenas da troca de um presidente por outro. Tal como estamos hoje, qualquer que seja o futuro presidente, ele estará sujeito a se ver envolvido pelo mesmo mar de lama que habitamos hoje.

O estilo de governo do presidencialismo de coalizão faliu e pode arrastar a governabilidade. A devassa ainda terá que chegar, além dos bancos públicos e fundos de pensão, aos estados e municípios. Ou alguém imagina que esse mar de lama só ocorre na esfera federal?

Podemos e queremos ser uma grande nação, mas essa República precisa ser repactuada e passada a limpo. Esta tarefa não será concretizada apenas pelos partidos de oposição. Teremos que sair desse gueto e conversar com todas as forças políticas, mas, e especialmente, fazer o que não sabemos: conversar com a sociedade.

Por: Demétrio Carneiro

Demétrio Carneiro

Demétrio Carneiro

Economista, ex-professor da Universidade de Brasília, especialista em Políticas Públicas.
Demétrio Carneiro

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