Um crítico da esquerda em torno de 1964

Em 1964 – O Último Ato, Wilson Figueiredo se dedica principalmente a apontar os erros das esquerdas brasileiras antes e depois do golpe militar.

Reunião de artigos publicados no primeiro semestre de 1964 no Jornal do Brasil, no qual o autor escreveu editoriais e textos assinados por 45 anos, o livro tem as vantagens e as desvantagens dos relatos escritos no calor da hora. De um lado, registra detalhes saborosos que a síntese histórica posterior acabou suprimindo; de outro, tem o alcance limitado por não poder contar com interpretações que a distância no tempo ajudou a fixar.

Para Figueiredo, até a escolha da data do comício que marcou o início da queda de Jango – uma sexta-feira, 13 de março – demonstra que, ao desafiar a superstição popular, havia uma autoconfiança desmedida das forças de esquerda, sem lastro nos fatos. “A margem de erros possíveis foi desprezada pelos calculistas radicais” detentores da “certeza da predestinação”, apontou o jornalista.

Um ponto alto do livro é a reconstituição do ambiente naqueles dias turbulentos. Ao criticar as esquerdas pela inépcia de avaliar a reação conservadora, subestimando-a, Figueiredo observa como as famílias de classe média reagiram aos discursos inflamados de Jango e companheiros. Na zona sul do Rio, “velas acesas nas janelas consumiam-se no silêncio que descera sobre as ruas vazias”. Em São Paulo, “as igrejas estavam cheias de fiéis refugiados em orações”.

O Jornal do Brasil, como de resto quase toda a grande imprensa – com exceção do Última Hora, que apoiava o presidente –, defendeu a deposição de Jango nos dias que antecederam o golpe. Figueiredo, no entanto, embora ajudasse a expor a opinião do jornal, não conclamava a intervenção do Exército, como atesta a socióloga Alzira Alves de Abreu no prefácio. Os textos de Figueiredo “não trazem em nenhum momento um pedido de transgressão das normas democráticas”.

O jornalista endossa a tese, dominante desde a época, de que o “fator determinante” do golpe “foi a certeza da existência real do perigo comunista e da suposta convivência do governo Goulart com o programa subversivo”. O comportamento de Jango a partir de meados de março teria confirmado “a suspeita de que ele se convertera irremediavelmente à esquerdização do Brasil”.

O autor também menciona a distância entre as lideranças esquerdistas e as bases, que teria sido fatal para as forças de apoio ao presidente. “A maior parte do programa esquerdista brasileiro não excedia os limites do aparelhamento burocrático federal”, escreveu ele, duas semanas após o golpe.

As duas observações procedem, embora não deem conta de explicar todo o quadro político que levou à quebra democrática. Faltou, por exemplo, enfatizar o projeto das forças conservadoras, que, sem sucesso nas urnas, desde os anos 50 encaravam o golpe como um atalho para chegar ao poder, independentemente da suposta ameaça comunista.

Outras análises, porém, carecem de fundamento. Figueiredo cobra das esquerdas uma tarefa revisionista no início da ditadura, o que talvez fizesse sentido, de uma perspectiva reformista, em abril de 64, quando o artigo foi publicado, mas teria sido inútil, como a história se encarregaria de provar.

Uma nota destoante é a tentativa de abordar pelo viés psicológico o apoio popular ao golpe. Para Figueiredo, teria sido resultado do “desejo de autopunição do eleitorado janista, que não se perdoava por ter sido enganado pelo candidato vitorioso em 1960”.

Por: Oscar Pilagallo


 

Sobre a obra: 1964 – O Último Ato, de Wilson Figueiredo. Gryphus 188 p., 2014.

 

Oscar Pilagallo

Oscar Pilagallo

Jornalista, autor de História da Imprensa Paulista e coautor da história em quadrinhos O Golpe de 64.
Oscar Pilagallo

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