Brinde ao cangaceiro do cinema

Vladimir Carvalho é um cangaceiro das artes; em vez de um fuzil, ele empunha uma câmera ou uma máquina de escrever da marca Remington. É capaz de mover montanhas de empecilhos, animado pela fé invencível nas luzes do cinema. Ele completa hoje 80 anos de idade e merece todas as honras, pois, como disse o compositor Cartola, quem gosta de homenagem depois de morto é estátua. Dos 80 anos de Vladimir, 40 foram dedicados à criação e à consolidação do cinema brasiliense, na condição de cineasta, de professor e de articulador (conceitual e político) do curso de cinema da Universidade de Brasília, matriz de várias gerações de cineastas.

Glauber Rocha escreveu que Vladimir era o Vertov das caatingas; mas ele se transformou no Vertov do Cerrado, depois de 40 anos no Planalto. Trouxe para Brasília o espírito de inquietação de uma das nascentes do Cinema Novo, pois participou como assistente de Aruanda, documentário de Linduarte Noronha, em que, pela primeira vez, a luz crua do sertão estouraria na tela sem o filtro das lentes cinematográficas. A experiência inspiraria Glauber Rocha na fotografia de Deus e O Diabo na Terra do Sol e na formulação de uma estética da fome. Também como assistente, Vladimir viveria uma aventura dramática com o documentário Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho, interrompido no meio das filmagens, pelo golpe militar e a caçada à equipe do filme no sertão de Pernambuco. Todos tiveram de fugir, dissimulados em disfarces e perucas, para escapar ao cerco dos agentes da repressão.

No Rio de Janeiro, Vladimir se enturmou com o pessoal do Cinema Novo. Antes, conversou com Glauber Rocha e, no seu tom tipicamente conspiratório, o cineasta baiano olhou para os lados desconfiado, pôs a mão no ombro do amigo e ordenou: “Pode vir porque nós te daremos cobertura”. E, de fato, no Rio, teve a oportunidade de participar de uma experiência crucial: a assistência de direção do documentário Pindorama, de Arnaldo Jabor: “Posso dizer que, com Jabor, vivi o choque benfazejo do cinema-verdade”, conta Vladimir no livro Pedras na lua e pelejas no planalto.

Antes da passagem pelo Rio, Vladimir morou dois anos na efervescente Salvador do período pré-tropicalista para fazer o curso de filosofia na Universidade Federal da Bahia, onde teve, na condição de colegas e amigos, o compositor Caetano Veloso e o ensaísta Carlos Nelson Coutinho. Assistiu aos primeiros shows de Caetano, Tom Zé, Maria Bethânia e Raul Seixas. Até os dias de hoje, sempre que vem fazer show em Brasília, Caetano se encontra com o paraibano. “Caetano não se preocupava com esse negócio de estudar. Tinha o caderno cheio de letras de música. Ele é um gênio. Quem tinha que se angustiar com isso era eu, um migrante paraibano que precisava do canudo para encontrar um rumo na vida.”

Todas as vezes que ouve o fraseado e a letra de Feira de mangaio, Vladimir Carvalho se transporta, imediatamente, para o cenário e para a atmosfera da cidade de Itabaiana, no interior da Paraíba, onde nasceu. Revê o menino sanfoneiro Sivuca, o autor da música citada, passar na janela da casa, acompanhado de sua família de artesãos de couro, a caminho do mercado. Sivuca tocava na banda organizada pelo pai de Vladimir. O cineasta revive, também, a imagem das boiadas levantando nuvens de pó e percorre as barracas com frutas, bois de barro, carrinhos de lataria e alpercatas.

Se nasceu em Itabaiana, renasceu em Brasília, para onde se mudou no início da década de 1970, depois de participar do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro com o curta-metragem A bolandeira. A primeira impressão foi de estranheza, a cidade lhe parecia uma paisagem surrealista de Giorgio de Chirico, com suas linhas de fuga cheias de solidão e silêncio. Mas, logo, ele enveredou pelas cidades da periferia e reencontrou o Nordeste vivo no Planalto.

O amor de Vladimir por Brasília não exclui uma contundente visão crítica. Em seus filmes, ele revela o outro lado do cartão-postal e vai na contramão da história oficial. Em Brasília segundo Feldman, reconstituiu o clima dos tempos pioneiros da construção da cidade, envolvida nas nuvens de poeira e na música de martelos, guindastes, serrotes, vigas de aço atritadas e gritos do trabalho dos que erguiam a capital modernista no meio do ermo.

Se o tema é insinuado em Brasília segundo Feldman, no filme seguinte, Conterrâneos Velhos de Guerra, aprofunda, desdobra e explora novas facetas da aventura dos candangos expulsos para a periferia da capital modernista. Barra 68 envereda por uma outra vertente da Brasília inconformista: a repressão violenta ao movimento de resistência dos estudantes da Universidade de Brasília, na virada dos anos 1960, depois da eclosão do regime militar. É câmara na mão, na marra, revelando uma Brasília rebelde, pouco conhecida do restante do país.

Quando correu a notícia de que Vladimir estava fazendo um filme sobre o rock de Brasília dos anos 1980, muitos levaram um susto: por que o cineasta paraibano se metia com a música eletrificada dos jovens? No entanto, para Vladimir, o rock, nada mais era do que um desdobramento de suas preocupações com a política: “Vladimir deixou evidente que qualquer filme sobre o rock alimenta a mistificação dos rebeldes sem causa”, comenta Sérgio Moriconi. “Ele chutou o balde da indústria cultural e deixou o conteúdo político nu e cru daquela geração brasiliense que se expressou pelo rock. Sacou um discurso político nas bandas de rock que tinha tudo a ver com Barra 68 e Conterrâneos velhos de Guerra”.

Além de ser o fundador da tradição do documentário sociológico e antropológico no Brasil, Vladimir é, também, um inovador no gênero, ressalta Moriconi. E cita como momentos antológicos: a utilização da música de Jota Lins para marcar a batida das pedras em Pedra da riqueza, o fotógrafo Walter Carvalho destelhando uma casa para filmar em Quilombro, a recriação do assassinato de uma criança em O engenho de Zé Lins: “Ele não faz pose de cineasta experimental, não é hedonista, você precisa ter olhos atentos para perceber as inovações.”

No início dos anos 1960, o crítico Paulo Emílio Salles Gomes e o cineasta Nelson Pereira dos Santos criaram, na UnB, o primeiro curso de cinema em uma universidade brasileira. A experiência foi implodida com o golpe militar, a invasão do câmpus e a demissão de mais de 200 professores. E, para Sérgio Moriconi, foi Vladimir quem fez o curso de cinema, efetivamente, funcionar, ao retomá-lo no início dos anos 1970, em uma Brasília sitiada pelo regime militar: “Graças à habilidade política de Vladimir, que concebeu os currículos, conseguiu recursos para comprar equipamentos e mobilizou os alunos para produzir filmes. O peso dele é importantíssimo no sentido de obter condições culturais, técnicas e políticas para se fazer cinema na cidade”.

Na cruzada em favor de uma cinema candango, Vladimir defendeu, em certo momento, a ideia de que Brasília teria vocação para o documentário. Não é uma cidade dotada de indústrias; os possíveis patrocínios viriam da área institucional para filmes didáticos a serem exibidos nas redes de escolas e universidades, calculava Vladimir, no seu estilo veemente e épico: “Esteticamente, as novas gerações fizeram um cinema de ficção, que se contrapôs completamente à proposta de Vladimir”, comenta Moriconi. “A dinâmica da cidade, com a criação dos instrumentos para fazer cinema, com os editais e as novas formas de produção, mudou os valores. Essa geração cresce com Renato Russo, não tem mais nada a ver com a nossa geração politizada e utópica dos anos 1960 a 1970. Renato Russo condensa muito bem o ethos das novas gerações. O cerceamento político arrefeceu e elas são marcadas pela angústia existencial e não pela política. O José Belmonte é um exemplo. O René Sampaio também. O Adirley Queiroz estaria mais próximo do Vladimir pelo gosto documental, mas é um franco atirador. Se quisermos usar uma imagem, ele seria um Vladimir alucinado e anárquico, pois parte do documentário para a ficção”.

Filho de um Dom Quixote sertanejo comunista e de uma mãe católica fervorosa que levava comida para os pobres e os presos, ele herdou o idealismo social e a compaixão humana militantes. Aos 80 anos, ele continua entusiasmado com o projeto de um documentário sobre o pintor pernambucano Cícero Dias e a exercer uma solidariedade franciscana, pungente, democrática e absoluta.

Depoimentos

“Lembro-me de Vladimir Carvalho, o Rosselini do sertão, Vertov das caatingas, Flaherty de Euclides da Cunha”. / Glauber Rocha, cineasta, em Revolução do Cinema Novo (reproduzido no Correio Braziliense, 31/01/2015).

“Sempre tive muita admiração pelo trabalho dele. É muito original, muito autêntico. Ele dialoga com o documentário antropológico, com Jean Rouch, e dialoga com o documentário brasileiro, investigativo e social (…) A obra do Vladmir é como os bons vinhos, vai melhorando com o tempo. Coisa de mestre”. / Renato Barbieri, documentarista, diretor de Atlântico Negro – Na rota dos orixás (1998) e Bianchetti (2010).

“Conheci o Vladimir vendo Conterrâneos velhos de guerra, (…) Tenho uma admiração muito grande por ele. Às vezes, quando bate um desânimo, uma vontade de desistir das coisas tão difíceis, eu me lembro do Vladimir e me animo novamente”. / Iberê Carvalho, cineasta, diretor de O último Cine Drive-In e Para pedir perdão.

“Vladimir representa a figura emblemática de uma luta política que permitiu o surgimento de uma produção local para muitos, como professor, realizador e pensador de cinema”. / José Eduardo Belmonte, cineasta, diretor de Alemão e Se nada mais der certo.

Severino Francisco

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Jornalista e escritor
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