
À direita e à esquerda, nesse canto específico do mundo pós-colonial emergente, ora se ouve que vivemos num mundo novo, ora num mundo em decadência, segundo a natureza da fonte informativa. O mundo certificado pelo discurso único
Quando nos informamos ou nos deixamos informar a partir das fontes legitimadoras do sistema, as ditas pró-ideológicas, uma dezena de novos conceitos, chavões e frases feitas, tudo certificado como verdade, nos encaminha à primeira alternativa: a do mundo novo – Abre-se às novas gerações um maravilhoso mundo novo... E se seguem os argumentos justificadores: a) graças aos avanços da ciência, especialmente à enxurrada de artefatos tecnológicos digitalizados, com destaque para os ligados às TIC – tecnologias da informação e comunicação, em especial às redes sociais-web, que agora já promovem até revoluções “democráticas”; b) graças à abertura dos mercados (menos o do petróleo, porquê? – procure saber); c) graças à flexibilização do Estado emergente quanto às suas funções, fazendo parcerias com grupos privados superestatais e dando livre, garantido e remunerado curso ao capital apátrida; d) graças à venda dos ativos estatais para pagamento da “nossa”/ “do mercado” dívida externa (o que fizemos com FHC e certos europeus não querem fazer agora); e) graças, em fim, às privatizações...
Em conseqüência de tudo isso, por fim chegamos à sonhada estabilidade econômico-financeira com crescimento e inovação tecnológica permanentes, proposição despudoradamente repetida, não obstante imediatamente desmentida pelo nosso dia-a-dia.
Ainda nesse diapasão, para que não nos esqueçamos, cumpre-nos a aceitação juramentada, como cidadãos, não importa se desempregados, trabalhadores, empresários ou investidores, de que a mudança social civilizada, legitimada, com paz e estabilidade – só pode ocorrer num quadro de democracia, mesmo se a priori definida, consentida e certificada, democracia prêt a porter. Por via desse pressuposto, também nos certificamos do fim das utopias frente ao primado da realpolitik. Finalizando a lição, um pedágio ainda, em termos de reprimenda: “Quieto, política é coisa de político, quanto mais corrupto melhor!”
Não é de surpreender o nosso mutismo, indiferença ou exílio, enquanto povo, no que tange à legitimação da ação política “real” que a nossos olhos criou e está criando esse mundo novo, ação política que se diz feita em nosso nome... Não é de surpreender a aceitação, por parte dos governantes, desse mutismo e exílio das massas como fato necessário, positivo, indicador da perfectibilidade dos seus instrumentos de governança – conceito novo também. É a profissionalização no mau sentido da política.
Da parte dos movimentos sociais, com destaque para o Movimento Sindical e o Movimento Negro, digamos que quando “não querem” ou “não podem” participar da compreensão do discurso único, até mesmo em função da crise teórica que aos seus militantes nega base de conhecimentos, terão suas entidades diante de si intransponíveis obstáculos à sobrevivência e desenvolvimento: míngua de militância e de um mínimo de recursos para o custeio.
O mundo como sói acontecer
Quando, porém, nos informamos ou nos deixamos informar pelas imagens do dia-a-dia, até mesmo por cenas não inteiramente censuradas nos meios audiovisuais disponíveis, parece-nos difícil afastar a conclusão de que mergulhamos de vez no circo dos horrores do Armagedon. Confirmam-nos a conclusão eventos vários, quer ligados ao plano das relações interindividuais ou das relações interinstitucionais, quer ligados ao nexo dos conceitos, das idéias, mesmo das palavras. Os mais inocentes efeitos desse quadro de “cabeçadas no absurdo” são os impasses quanto ao que fazer, ocorrentes não apenas entre estados e organizações de alto nível, mas entre os próprios indivíduos vitimizados, choques de significado nem tanto quanto à solução, mas principalmente à compreensão de questões simples – a fome (num mundo de excesso de produção e riqueza), desnecessidade do trabalhador e hipervalorização dos produtos, falta de acesso à terra e à moradia, sem falarmos nas mais complexas, a questão do clima, a ambiental e seus corolários... E que nem se fale no sentido da Vida...
Reconfirma-nos a conclusão de que vivemos num quadro caótico, a descrença absoluta na capacidade regeneradora do homem e do sistema, até mesmo diante da repetição diuturna de exemplos de falta de seriedade, de chistes, mentiras, logros e brincadeiras na ação dos que governam, dos que dizem por nós orarem, por nós pensarem. Citem-se apenas: a) a opção aberta pela violência por parte de estados e organizações internacionais que nasceram compromissados com a paz...; b) ações abertas de pirataria em nome da “comunidade internacional”; c) a proteção a civis a partir do seu massacre...; d) o tratamento que se dá às sucessivas edições das crises econômico-financeiras, abertamente premiando-se aos que lhe deram e dão causa, ao tempo em que se pune os que sofrem seus efeitos e com seus impostos pagam seus prejuízos; e) a progressão irreversível dos níveis de degradação ambiental em nosso entorno imediato – as cidades, os subúrbios, nossa rua, nossa casa, a escola, o hospital – a violência visível e previsível no sentido de que quando agredido não se tem para onde correr, já que o acesso à justiça é condicionado pela renda. E isso para não falarmos da crise ambiental lato senso: desertificação, depleção da vida marinha e da vida silvestre, desaparecimento das geleiras e calotas polares, esgotamento ou contaminação de fontes e lençóis aqüíferos, ao lado de prêmios milionários a “projetinhos” de ‘sustentabilidade discutível’ patrocinados por aqueles que são os megapoluidores. Mas não nos esqueçamos da fieira de tragédias relacionadas à vida e à propriedade das pessoas simples: tsunamis (cuja primeira nota televisiva em 2001 dava conta de apenas 35 óbitos ...); deslocamentos populacionais e migrações permanentes, guerras pela posse desse ou daquele fator ambiental no país do outro... em nome da Comunidade Internacional. E para que não se diga que esquecemos, o permanente massacre do povo africano, em especial a mulher e a criança... A partir desse quadro e dos que nos pintam as fontes pró-ideológicas, cabe-nos optar: a que mundo deve se dirigir nossa atuação enquanto Movimento Social, enquanto Movimento Negro?
Observações importantes
1. Dada a característica ubíqua e insidiosa do racismo no discurso de que se serve o homem pós-renascentista, para não dizer, “de que nos servimos todos, inclusive o autor deste texto”, reafirmemos aqui, contrariando esse discurso renascentista a partir de sua raiz, que de modo nenhum aceitamos que o mundo como tal, perfeito ou imperfeito como o temos aqui e agora, produto da História do Homo Sapiens nesses últimos 100 mil anos (aqui implodimos os padrões cronológicos renascentistas) seja obra das etnias de pele clara – brancos, como se diz. A declaração é para atestar muitas coisas, a primeira sendo a nossa responsabilidade autoral como negros por esse mundo em que nos incluímos entre as vítimas. É o mundo que nós negros juntamente com as demais etnias construímos, ou no mínimo, ajudamos a construir, embora do século XVI para cá os povos europeus (brancos), de sua criação e construção tenham assumido, por artes da violência, do obscurantismo e da contrafação histórica, autoria e protagonismo absolutos.
2.Os Movimentos Sociais, entre os quais o Movimento Negro, são criados por complexas linhas de força do desenvolvimento histórico, impossíveis de serem percebidas ou pinçadas a partir de minúsculos atributos particulares. Dito de outro modo: os Movimentos Sociais no século 20 são criados pelas novas tendências caracterizadoras do politicamente correto, no caso, aquelas que professam o reconhecimento da diversidade – gênero, língua, etnia, religião, em condição de debate, de conflito no ambiente político contemporâneo. Mas cumpre advertir que muitas das tendências caracterizadoras do politicamente correto, por sua vez nascem num contexto de discurso alienado e único e são seguidas e promovidas por ‘tipos sociais” que a crônica do mundano chama de socialaites....As massas há muito não criam a agenda das questões que, em seu nome, a ação política de pequenos grupos pretende debater e dar solução.
Aceitas as observações, tentemos configurar, em termos de hipóteses, as metas, as ações, a atuação justificada de entidades de um imaginado Movimento Negro, quando expostas aos fluxos de informação anteriormente descritos.
Militantes empreendedoristas
Em função de uma opção mais inclinada à tendência ou visão pró-ideológica, podemos, em termos de hipótese, ter um Movimento Negro com programas, objetivos e metas caracterizados por marcante atividade sócio-empresarial, no sentido de ênfase na geração de recursos financeiros – o nome das entidades virando marca, logotipo, a freqüentarem, contra pagamento, a programação social e cultural, sempre festivas, de entidades congêneres, programação essa sempre patrocinada pelo Estado e empresas estatais recém- privatizadas. É a ação política vista como showbusiness... Nos casos extremos, ainda por hipótese, essas showbusiness enterprises poderiam ir à lavagem de dinheiro.
Nessa mesma linha, as entidades ou ongs desse hipotético movimento negro exibem-se em páginas da web que competem pela exposição de anúncios de tênis (pense-se nos meninos na Índia e Paquistão), promovem campanhas na mídia “massificando” a imagem e atividade de seus diretores, fazem franquia da própria marca e logotipo para bens de consumo com apelo entre os jovens negros, fazem articulação ostensiva com partidos políticos e seus aparelhos, praticam, apenas, militância virtual, ou seja, os contatos e a “luta política” em si ocorrendo naquele mundo luminoso cuja superfície visível é a tela de um micro. A mais acessada das telas, eis a politicamente correta, consequentemente a mais cara, celeiro de lideranças desse hipotético MN. Diante desse quadro hipotético seria ironia dizer que vivemos no mundo do branco, feito pelo branco... Ora, não nos façam rir.
Porém, a característica de maior impacto nesse tipo de Movimento Negro, que sempre queremos hipotético, é sua aceitação por parte do sistema, ou melhor, sua para-oficialidade. Dele, cumpre dizer ainda, sairiam, se fosse o caso, muitos dos representantes negros a atuarem nas organizações oficiais, principalmente estaduais e municipais. Observe-se que estamos a descrever um quadro hipotético. Se tal fato viesse a ocorrer, teríamos uma contradição, nos parece, pois que tendo em vista a efetividade do trabalho que nesse caso realizariam esses militantes negros, seus patrões deveriam ser as grandes empresas nacionais e multinacionais, não os órgãos dos Executivos.
Felizmente, tanto em número, quanto em ação, é hipotético o conjunto de organizações que por esse caminho enveredam ou têm enveredado. Não as encontraríamos em nossa realidade. Cabe-nos estudar e re-estudar a história da ascensão política do presidente Obama. Deve esta ascensão ter sido em repulsa a esse tipo de militância, pois sabemos que ela não leva a nada... e a militância dele levou ou vai levar...
Como um aviso para que nunca tenhamos um significativo naipe dessas organizações em nosso meio, cumpre que as caricaturemos e denunciemos o oportunismo de seus dirigentes. Pois dada a força da pregação “neoliberalista”, se não a denunciarmos, logo logo a hipótese pode se tornar realidade. E ultrapassando os espaços restritos aos movimentos sociais, teremos partidos de esquerda à testa de grandes grupos empresariais amealhando fortunas para financiamento da revolução operário-camponesa (onde e quando?), sindicatos aplicando nas ações do setor patronal da “catigoria” a que pertencem, partidos em geral contratando Think Tanks do primeiro mundo para governarem os estados em que seus candidatos são governo eleito.
Estaríamos num beco sem saída?
Chegados ao beco sem saída, que há de errado? Que nos trouxe até aqui? Era falso o mapa da mina, do labirinto?
Aproximemo-nos da resposta, ou melhor, de um quadro onde possa surgir uma resposta, prossigamos.
Todos sabem que a atividade de mando, de governo, é reflexiva[1], passa pelo pensamento, pela “razão-consenso-legitimação Eu-tu-ele-nós”, por esses atributos podendo dispensar tudo, prescindir de tudo, menos da sua própria fonte legitimadora, da “autoridade que lhe dá autoridade”. Levada ao extremo, a fonte de qualquer autoridade, a fonte de qualquer poder, é a crença-fé-reconhecimento-legitimação-logos: é questão intersubjetiva.
Todo e qualquer grupo humano em relativo estágio de organização social só pode marchar em direção ao “seu” futuro consoante um quadro de narrativas inaugurais, também chamado de Discurso ou mesmo Visão de Mundo, Mapa do Labirinto, agora também Road Map. Trazendo a questão para casa, nós – os povos das Américas, os povos do Novo Mundo, os povos da Diáspora Negra – somos filhos do Renascimento, o Road Map feito por povos europeus em dispersão bélica pela posse do mundo. Eis aí uma questão: mapa que não foi feito por nós nem para nós da Diáspora...Esse Mapa é também chamado Iluminismo, muitas vezes referido pelo seu falso, mas impactante atributo – os Descobrimentos...(ai dos descobridores quando os chineses começarem a vender seus livros de história). Há muito tempo já se sabe que Vasco da Gama só atravessou o Índico porque seqüestrou um piloto negro e o manteve como cativo até que este o levou a Calicute.
Rememoremos rapidamente que além de fatos como os tais “descobrimentos”, caracteriza o Renascimento: a) a bifurcação da Cristandade em termos de ‘um mais’ e de ‘um menos’ explícito, ou radical, monoteísmo – a Reforma e Contra-Reforma; b) a deletação, obnubilação, aborto a partir da raspagem do útero, de tudo que possa se referir à presença africana na história, presença civilizada, é claro, pois cumpria escravizar o negro como cativo nato e tornar o continente terra de ninguém; c) a manipulação da herança cultural da Antiguidade universal, fazendo-a convergir para uma língua de cultura multiétnica, tida como de um só povo, nomeando titular dessa cultura “os gregos”, um povo de expressão “urbana e secular” se comparado a povos milenares dos grandes impérios do entorno, com o repúdio ou folclorização ou diabolização ou barbarização de toda a cultura da Antiguidade européia e universal; d) destruição (ou confinamento indisponível pelas gerações futuras) de documentos escritos e monumentos, ícones, fluxo de tradições orais dessa própria antiguidade européia – a Inquisição, seus autos-de-fé e fogueiras tendo ocorrido só e exclusivamente para isso; e) assepsia no mundo imaginário europeu, promovida por parte de suas elites intelectuais, a começar pela abjuração a qualquer resquício de paganismo e pela faxina “amoralizante-amoralizadora” da ciência...A ciência só é moral (tem valor, e muito) para o cientista...Continuando, não só o céu é branco, cheio de gente branca com asas... (não me diga que você já viu anjo negro, leitor!), o próprio Deus é branco, a imagem e semelhança do homem (não me diga que esse homem não tem cor...).
Distinguindo-se de todos os povos “recém-descobertos” por esses aspectos, além do culto teológico e filosófico à Ciência, com esse discurso, instrumento para o domínio da natureza por parte do homem branco, os europeus, através de sua Cristandade, vêm a se legitimarem a si mesmos como líderes imediatos do Novo Mundo e, por via de conseqüência, dada à ausência de contestação, líderes do Mundo Velho também, logo demiurgos, Super Men. O pior é que quando o discurso histórico ou etnológico, mesmo acrítico, prescinde de qualquer precisão, os povos brancos são englobados num só conjunto e, ainda sem crítica e sem pejo – vide a saga maldita do soldado norueguês, todos eles, em seu conjunto, são apresentados ao mundo e a si mesmos na condição de donos do mundo, com direito a fuzilar a todos os demais. São heróis hoje, ovelhas do redil do Eixo do Bem, todos os carniceiros da Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Mas estão massacrando o pobre pastor metodista Laurent Gbagbo, ex-presidente da Costa do Marfim. À sua esposa, fizeram o que não se faz com nenhuma mulher: à sua prisão, desceram-lhe o cassetete e a apresentaram às câmaras de televisão de todo o mundo – uma negra, ensandecida, desgrenhada...a primeira dama do Estado da Costa do Marfim.
Renascimento, Iluminismo, Descobrimentos são narrativas justificadoras do etnocentrismo que presidiu e preside ao recente e assimétrico encontro de povos culturalmente diversos num contexto de trocas comerciais, isto é, com objetivo de lucro, ouro ou prata. Serviram e servem essas narrativas unilateriais para justificar as ações dos europeus vitoriosos como pertinentes a um ato inaugural, civilizador, logo acima de qualquer pauta de julgamento – legitimada, aceita e atestada como virtuosa, racional, humanista, não obstante a fieira de crimes que a ocupação, massacre e escravização dos povos das Américas, Ásia e África vão determinar séculos afora. Vão determinar não, estão determinando até hoje, agora.
O beco sem saída é esse. O discurso com que queremos denunciar, combater e abjurar o racismo, o etnocentrismo em todas as dimensões de nossa existência social, é o mesmo, sem a menor ressalva ou apara, com que confirmamos nossa pertinência civilizada... civilizada em oposição a povos que esses mesmos europeus, consoante as determinações de seu mesmo e exato Road Map, de seu Iluminismo, mantiveram e mantêm a partir de suas armas bélicas, econômicas e ideológicas ou culturais como incivilizados, “brutos escravizados ou escravizáveis”, parasitas da sua cultura branca, excluídos da “civilização”, a européia, também referida como greco-judaico-cristã. Deletou-se o prefixo afro desse composto, não obstante os 100 mil anos do nosso mtDNA (que nos foi transferido pela nossa Mãe Africana e Negra), não obstante os 10 mil anos de Chem, Khem, ou Khmi, que é como os egípcios antigos se chamavam a si mesmos à sua terra, cuja melhor tradução é negro e terra de negros. Cumpre levar a cabo a desconstrução, a crítica demolidora desse discurso etnocentrista. Retornando ao aqui e agora, seguindo esse discurso, quer-se que a população do Haiti hoje tenha os mesmos valores e atitudes que têm os europeus no que tange à posse da terra, à agricultura, alimentação, às crenças religiosas, padrões de organização da família e do Estado, em fim quer-se que ele aplique na bolsa, talvez invenção dos chineses também. Mas quer-se ao mesmo tempo que o pobre homem do Haiti “quebre a cara” na medida em que, tentando como alienado, não consiga ser nada disso, senão ele mesmo, e então confirme a superioridade da cultura européia, legitimando a própria perda do território, da identidade histórica, da dignidade de ser humano. Palmas para uma cultura que promove o darwinismo social.
Por ser etnocêntrico, o Road Map europeu, também chamado de Renascimento, Iluminismo, Descobrimentos erige “suas” ciências sociais a paradigma, configurando um ‘específico’ modelo de sociedade – o deles, um específico modelo de família, de Estado ou poder central, de padrão de evolução histórica – tudo o deles. O que está fora é bárbaro, é bicho, é escravo, é caça... Nesse sentido, não é de estranhar que o cancro das sociopatias – o racismo, tenha confirmação a partir de postulações de suas próprias ciências...O paradoxo é que todos “eles” e todos “nós” ainda aceitamos “sua ciência” como “universais”...
Se inimigos recíprocos entram em guerra, não obstante marcados por assimétrico potencial bélico – David e Golias, dispondo dos mesmos terrenos e mapas, justificando-se na luta pelas mesmas razões, participando dos mesmos valores morais, tendo programas equivalentes para a vitória ou o devir, pergunta-se: Poderá haver nessa luta esperança de vitória ou derrota? Se o amigo ganha, que muda? Se o inimigo ganha, que muda? Se o discurso é o mesmo, a ação a esperar-se, a mesma.
Quando se diz que o Renascimento teve fim em 1989 ou em 2001, quer-se dizer ao jovem militante que o mapa euro-etnocêntrico é hoje visto como uma farsa, trouxe a humanidade ao Campo do Armagedon, à Barbárie, sítio maldito em que os homens não poderão viver senão como feras. E dentre todas as etnias que habitam o Planeta cabe àquelas que têm melanina assumirem com maior determinação a luta pelo nascimento de uma Humanidade que ultrapasse a noção de etnias hierarquizadas e suas determinações cromáticas. Terra – Planeta de Todos. A propósito, o Brasil tem tudo para liderar esta luta.
[1] No que tange ao novo panorama da política em termos mundiais, estamos nos amparando em Nikolas Rose, Powers of Freedom – refraiming political thought, Cambridge University Press, N. Y. 1999, de onde sai todo o fim do parágrafo, segundo a compreensão do autor.