Podemos, o fim de uma época do sistema partidário espanhol

Nos dias 24 e 25 de fevereiro, ocorreu no Parlamento espanhol, em Madri, um debate sobre a situação nacional. Na primeira parte da sessão, evidenciou-se que não havia, por parte do governo, a menor intenção de debater com a oposição: o primeiro ministro Mariano Rajoy, em sua intervenção inaugural, limitou-se a um discurso que colocava a Espanha como o “país das maravilhas”, uma Alemanha do Sul. Nem mais, nem menos. Um discurso somente para aqueles já convencidos, desligado do que foi o último ano político do país. O então líder da oposição, o socialista Pedro Sánchez, o respondeu com dureza, sintetizando o que, a seu juízo, havia sido o ano em exercício do governo que se avaliava: “Precariedade, impostos e Bárcenas” (em alusão ao ex-tesoureiro do PP e vértice da corrupção que atinge todo o partido). No debate, Rajoy chegou a perder as formalidades da cortesia parlamentar, o que indicava o quanto sua irritação corria em paralelo com a debilidade de seu discurso.

Outro dado a se levar em consideração é que o debate apresentou um déficit importante, porém inevitável, uma vez que não participaram os líderes dos partidos emergentes: Pablo Iglesias y Albert Rivera. Este handicap, claro, se superará quando houver novas eleições legislativas, dado que agora nenhum deles é deputado em Madri. Tudo isso evidencia a distância que há entre o atual Parlamento espanhol e a realidade partidária do país e, ainda, o quanto é delicada a situação nacional. Com efeito, no mesmo dia 25, o líder do Podemos realizou um encontro multitudinário, profusamente difundido por todos os meios de comunicação, no qual ele se reivindicou como o autêntico líder da “oposição real” e replicou o discurso que Rajoy havia proferido no Parlamento.

Independentemente da opinião que se tenha sobre a nova formação política e sobre seu líder, é indiscutível que a sombra do Podemos está, nesse momento, muito alargada. Convém recordar que é um novo partido político que passou, em menos de 12 meses, da não existência para uma alternativa de governo nos distintos níveis: local, regional e nacional.

Boa parte dos cidadãos está vivendo este tempo de mudanças com uma sensação de crescente vertigem: realmente não se sabe se uma parte importante do velho realmente irá morrer e algo efetivamente novo irá realmente nascer. Esta síndrome é reforçada pelo modo como está sendo gerenciada a crise da União Europeia e, nesse cenário, o que ocorre e o que ocorrerá na Grécia incidem com muita intensidade na conjuntura espanhola.1

Centremo-nos, não obstante, no que está se passando na Espanha e, especialmente no que significa e pode significar a irrupção desta nova força partidária que se chama Podemos. Façamos uma brevíssima retrospectiva.

No dia 26 de dezembro, foi celebrado o último Conselho de Ministros de 2014. Após seu término, Mariano Rajoy compareceu perante os meios de comunicação. Seu discurso foi o esperado: um otimismo impermeável à realidade das ruas, um abuso da estatística em matéria econômica e das evasivas habituais diante das perguntas mais delicadas dos jornalistas. Algumas horas antes, no dia 24, à noite, o rei Felipe VI havia aparecido na televisão pública para dirigir-se aos espanhóis, como é tradicional. Sua intervenção se baseou em três eixos: a crise, a corrupção e a situação catalã. Como se sabe, o rei fala em certa consonância com o Executivo, já que reina, mas não governa. Portanto, seu discurso foi parecido ao anterior de Rajoy, talvez com um pouco mais de afeto; um sentimento que o presidente é incapaz de transmitir.

Após a aparição de Rajoy, na coletiva de imprensa, no dia 26, Pedro Sánchez, secretário-geral do Partido Socialista, fez o mesmo: abordou os mesmos três pontos do rei e do presidente, rechaçando com energia o infundado otimismo deste, exigindo que não falasse da recuperação econômica em vão, tendo ainda assegurado que, em nenhuma hipótese, haverá na Espanha um governo de coalização Partido Popular-Partido Socialista Operário Espanhol (PP-PSOE), nas próximas eleições – uma ideia recorrente no mundo político, nos últimos meses, que Rajoy voltou a deixar transparecer em sua intervenção â imprensa.

No dia 27, na página oficial do Podemos, podia-se ler o seguinte: “O bipartidarismo afunda e nenhum pacto entre os partidos da casta poderá salvá-lo e trazê-lo à tona novamente. Instabilidade é aplicar políticas de austeridade que empobrecem a maioria da população, ao passo que uma minoria enriquece à custa de todos.

As velhas receitas políticas já não funcionam e, pela primeira vez em décadas, abre-se a oportunidade de recuperar o país pelas e para as pessoas”.

Contrariamente ao que foi dito por Rajoy ou por Sánchez, argumentos de que se pode desconfiar facilmente, o escrito na página do Facebook do Podemos, poderia ser subscrito por milhões de espanhóis. Isso demonstra que, neste momento político, o maior problema dos grandes partidos é a credibilidade. Somente aqueles ligados a interesses determinados e os que têm uma fé ideológica à prova de fogo são capazes de conceder-lhes a confiança que perderam abundantemente, sobretudo desde que começaram os primeiros efeitos da crise, há sete anos. O PSOE primeiramente negou a existência da crise, depois a aceitou rangendo os dentes e, finalmente, pactuou com o PP uma reforma constitucional expedita, bem como a aplicação das primeiras medidas austeras que lhe exigiram Berlim e Bruxelas. Não sabemos se a história absolverá a Rodríguez Zapatero, porém é improvável.

Atualmente, a lembrança do ocorrido em maio de 2010 é um pesado fardo. Trata-se de uma data fatídica para o socialismo espanhol. O governo de Zapatero rompeu seu programa e seu compromisso com os cidadãos, porém não considerou sua própria demissão. Talvez se o tivesse feito, as coisas teriam sido muito distintas, porém não o fez. Continuou dançando ao som que lhe marcava a Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), aparentemente insensível perante os estragos provocados pelas medidas de ajuste. A reforma expressa da Constituição (do art. 135, sobre a estabilidade orçamentária), sacrossanto documento convertido em algo como as Tábuas de Moisés para ambos os partidos (ao menos na época, porque o PSOE de hoje está em outra lógica), cuja modificação se pactuara por telefone em uma conversa entre Zapatero e Rajoy, foi o tiro de misericórdia do bipartidarismo na Espanha.

Naquele então, PSOE e PP contavam com 90% dos deputados e senadores no parlamento espanhol, e somente as minorias nacionalistas, basca e catalã, tinham um peso relativo a considerar nas Câmaras. Nas últimas pesquisas de intenção de voto, PP e PSOE estão abaixo de 50% dos sufrágios, o que não é senão a certificação do que está escrito na página do Facebook do Podemos: o bipartidarismo está falido na Espanha.

A corrupção se tornou insuportável para os cidadãos golpeados pela crise, com os fortíssimos cortes nos gastos públicos, com o desemprego em cifras impossíveis de aceitar e com milhares de jovens bem formados recorrendo à imigração para qualquer lugar do mundo em que encontrem trabalho.

As cifras da corrupção na Espanha mostram que há mais de 1.900 pessoas imputadas em causas abertas e ao menos 170 foram condenadas por este tipo de delito na última legislatura. Não obstante, a maioria destes condenados não está presa, seja porque não lhes impuseram uma pena de prisão, seja porque somente foram cassados ou multados ou porque ainda possuem recursos pendentes. Entre os imputados está a própria irmã do rei Felipe VI (a princesa Cristina) e ainda há ex-ministros, ex-presidentes, prefeitos, empresários, altos cargos partidários e até algum sindicalista. Entre os atualmente encarcerados, excetuando a Família Real (no momento, tudo pode acontecer), encontramos membros dos mesmos coletivos.

É preciso colocar essa corrupção em contato com a dureza da crise, a que Rajoy disse que havia passado. Mente. Contrariamente ao que afirmou, na coletiva de imprensa, a pobreza aumentou, as rendas familiares diminuíram, assim como a população ativa e as taxas de proteção social.

Foi nesse cenário que surgiu uma nova organização partidária. Possivelmente por isso, não são poucas as vezes que acusam o Podemos de ser, precisamente, uma proposta populista.2

Os vínculos políticos e profissionais que alguns de seus líderes mantiveram por anos com a Venezuela, de Hugo Chávez, e o explícito reconhecimento de seu trabalho político, abonam a tese. Ainda mais que o afastamento que se inicia em relação ao regime de Nicolás Maduro é, todavia, muito insuficiente e demasiado ambíguo. Ademais, a cobrança de uns suculentos e pouco claros honorários como assessor do Banco da ALBA por parte de um dos dirigentes fundacionais, Juan Carlos Monedero, gerou toda uma campanha de acusação e derrubada da organização por parte da direita política e midiática e, também, por parte de uma esquerda danificada pela irrupção dos simpatizantes e apoiadores de Pablo Iglesias.

Mesmo assim, o novo partido tem apenas alguns meses de vida, somente alguns rostos conhecidos e carece de experiência de governo: atualmente, pode-se dizer que está quase imaculado.

A partir das análises acadêmicas, sabemos que a organização se encaixa bastante bem nos perfis reconhecidos com o que chamamos de organizações populistas: uma liderança carismática clara, uma composição policlassista e heterogênea, um confesso interesse pela movimentação das ruas, uma ideologia eclética, que exalta os setores médios e baixos (no Podemos geralmente não se fala de “povo”, e sim das “gentes”, antítese da “casta”), que é explicitamente antielitista e/ou antiestablishment, e, finalmente, um projeto econômico redistributivo em benefício dos setores mais desfavorecidos.

Pode-se discutir se o Podemos se encaixa ou não no molde. Porém, o certo é que este debate, na fase que atravessamos, não importa em absolutamente nada à imensa maioria dos cidadãos. Seus líderes serem mais ou menos amigos do Bolivarianismo ou terem recebido dinheiro de Hugo Chávez em troca de assessoria política não os preocupa em (quase) nada. E mais: quanto mais aqueles que têm pouca ou nenhuma credibilidade lhes atacam por essa via, quanto mais os denigrem e os acusam de ser isto ou aquilo, mais o Podemos cresce nas pesquisas3.

Boa parte dos cidadãos pode ainda pensar que não deixa de ser engraçado que justamente aqueles que não cumprem seus programas, enganam os eleitores, culpam os outros por sua ineficácia e que governam ao sabor das pesquisas, acusem o novo partido de populista.

Mas o que a maioria dos cidadãos percebe é que estamos em um cenário de fim de um ciclo. Ademais, esses mesmos cidadãos observam com clareza outra coisa que a muitos causa regozijo e é inclusive estimulante: Podemos espalhou pânico entre os partidos e os políticos tradicionais e entre os grandes empresários e os banqueiros acostumados ao negócio fácil, à convivência ilícita. Aquele que era o plácido reservatório político espanhol, tranquilo como um cemitério bipartidário, registra nesses momentos ondas de mais de vinte metros e ventos que sopram como furacões.

A esquerda tradicional, mais ou menos vinculada ao histórico Partido Comunista da Espanha, vive sob um ataque de nervos. Podemos está comendo literalmente um terreno que lhe considerava próprio, por mais escasso que tenha sido em termos de representação política (por um sistema eleitoral muito injusto, há que ser dito). A Esquerda Unida, seu referente eleitoral, está se debatendo entre rejeitar o Podemos ou aliar-se com ele, o que tem gerado uma fortíssima discussão interna que, como ocorreu em Madri, fez que com que conhecidos dirigentes abandonassem a organização.

O que sobra das formações regionais à esquerda, particularmente os independentistas bascos e catalães, levam as mãos à cabeça. O Euskobarômetro acaba de situar o Podemos como a segunda força no país Basco, com escassa distância do tradicional Partido Nacionalista Basco e, por consequência, dos independentistas de Bildu. E isso com PSE-PSOE e PP bastante combalidos. Na Catalunha, após o desembarque dos de Pablo Iglesias, as pesquisas situam o Podem (a filial autóctone) com uma expectativa de voto que disputa a primazia com a própria Convregència i Unió (os nacionalistas tradicionalmente moderados, que hoje passaram ao independentismo), à frente da Esquerda Republicana de Catalunha, os soberanistas tradicionais que sensivelmente não sabem o que está se passando. Enquanto isso, os socialistas catalães e o PP regional aparecem igualmente combalidos. A palavra terremoto ainda seria suave para descrever o que esses resultados podem significar, caso se materializem.

Se os partidos bascos, especialmente os abertzales, se apressaram em negar a validade do Euskobarômetro, os catalões soberanistas qualificaram Pablo Iglesias como Cavalo de Troia do Estado e lerrouxista – um insulto político contundente, em alusão a um político republicano (Alejandro Lerroux) do primeiro terço do século passado, que combinava radicalismo verbal, boa oratória, demagogia, corrupção e espanholismo inequívoco. Para muitos soberanistas, Podemos seria pouco mais que o velho “regeneracionismo” espanhol e espanholista atualizado por uma operação de lifting.

O que está acontecendo, então, depois da emergência do Podemos? Apontaremos duas hipóteses que se pretendem explicativas e que precisam ser validadas mais adiante, fundamentalmente quando o discurso do Podemos se plasmar em programas eleitorais (as eleições municipais e autônomas serão em maio próximo), quando conheceremos o nome e a cara dos candidatos, e quando os cidadãos decidirão qual papeleta irão colocar na urna.

Primeira hipótese. É tão grande o repúdio, a aversão e a raiva acumulada contra os partidos majoritários (denominados pelo Podemos de forma desdenhosa e injusta, por sua generalização, como A Casta), que constituem uma legião aqueles que querem dar um bom soco no sistema que eles representam, esclerosado, insensível e incapaz, além de corrupto. A boa sanidade cívica do Podemos, hoje, colocou o sistema vigente de pernas para o ar; deu um murro no tabuleiro e nada, nada voltará a ser como antes de sua irrupção. Atualmente, Podemos é muitas coisas. Poderíamos nos atrever a dizer que, para cada possível eleitor, é o que cada um deles quiser que seja. Pode ser visto como um partido regenerador, saneador, vingador, justiceiro, renovador da elite política, modernizador da ideia de Espanha ou agente de uma mudança profunda das regras do jogo, uma espécie de parteiro de uma nova época. Podemos é, para muita gente, a ilusão política de que a realidade atual é reversível. Podemos tem feito muitos acreditarem que é possível governar de outra forma, sem esquecer-se das gentes e contando com elas, sem depreciá-las, sentindo o que estas gentes sentem e, especialmente, o que estas gentes sofrem. E, ademais, essa nova forma de governar pode ser feita sem roubos e sem a corrupção dos representantes políticos. No futuro, esta hipótese se validará ou não, porém os entrevistados que apostam no Podemos acreditam nela.

Segunda hipótese. Digam o que disserem os nacionalistas periféricos, e sem negar-lhes nem um centímetro da carga do nacionalismo banal (o cotidiano, na forma de Michel Billing) e, inclusive, do nacionalismo espanholista explícito que o Podemos sustenta, talvez não tenham entendido que uma parte não menor de seus apoios nos últimos tempos (desde que a crise se fez insuportável), não é tanto no seu sentido estrito, mas uma expressão de repúdio à nefasta política imposta por Madri. O Podemos sustenta que a Catalunha e os catalães têm sido ofendidos e maltratados pelos governos da Casta, que o sistema de 78 (em alusão à Constituição) está obsoleto, e – além disso, importantíssimo – que sim, que as gentes têm o direito a decidir se a Catalunha deve ser ou não um Estado independente, mas que também têm que decidir que tipo de política social exigem e que papel jogará o Estado em suas vidas. Crer que todo o apoio às impressionantes mobilizações impulsionadas pelos soberanistas era independentismo nato pode ter sido um importante erro de cálculo. Os partidários de um divórcio – que seria muito traumático para todos – pode ser que sejam bem menores que os partidários de compatibilizar os direitos e singularidades indiscutíveis da nação catalã dentro de um Estado plurinacional. Talvez uma reforma constitucional que estabeleça um marco federal deva ser a alternativa que poderia contar com mais apoios.

(Tradução de Marcus Vinícius Furtado da Silva Oliveira)


 

1 Sobre esse tema, consulte nosso texto: <http://elcronistaperiferico.blogspot.com.es/2015/02/el-harakiri-de-los-estupidos-segun.html>
2 Sobre este tema, consultar nosso texto em <http://elcronistaperiferico.blogspot.com.es/2014/10/pueblos-y-populismos.html>.
3 Sobre este assunto, consultar nosso texto em <http://elcronistaperiferico.blogspot.com.es/2014/11/podemos-y-los-efectos-de-la-revolucion.html>.

Joan Alcazar

Joan Alcazar

Professor de História Contemporânea na Universidade de Valencia/Espanha, ex-diretor do Centro Internacional de Gandia, atuou como professor visitante em várias universidades estrangeiras, entre elas a Universidade de São Paulo e a Universidade Estadual Paulista, e é autor de vários e importantes livros de ensaios.
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